Pastoreia minhas ovelhas…

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Hoje fui até a pequena Campo Limpo Paulista, a 40 Km de São Paulo, reencontrar duas queridas irmãs sírias, refugiadas há um ano e três meses no Brasil, a fim de acompanhar uma gravação pro programa Domingo Espetacular, da Record, sobre a violência do Estado Islâmico. Normalmente não atendo os pedidos pra estas entrevistas, pois sempre acabamos expondo-os a reviver seus momentos mais traumáticos, suas mais profundas memórias, lugares sagrados onde só é possível caminhar descalço. Mas hoje abri um exceção e, na verdade, nas horas que passei ali, ouvindo novamente suas histórias, lembrei da tarde onde as encontrei pela primeira vez… e fui lembrando de muitas outras histórias, de tantos e tantos recomeços e restaurações que, pela graça do Pai, pude participar. Hoje reencontrei mesmo foi com meu chamado, minhas convicções, a razão pela qual faço o que faço há 30 anos.

Sou pastor. Cuido de gente, ovelhas que na verdade não são minhas, são do Supremo Pastor. Acredito em gente que a maioria não acredita, mas o Eterno acredita e pra mim isto basta. Caminho por sombras e becos existenciais em busca dos quebrados e deslocados, convidando-lhes pra vir pra luz, encorajando-as à vir pra mesa novamente, abraçando, ouvindo, rindo, chorando, compartilhando o Evangelho, as boas novas do perdão, da comunhão, da liberdade de seguir ao Nazareno.

Assim como aprendi com meus mestres, gente especial que o Pai colocou na minha estrada, procuro sempre ministrar esperança, amor, coragem… até que a graça faça o seu efeito e a vida viva do Eterno desabroche novamente. Foi assim na minha vida. Meu chamado então é o de andar pelo deserto com as pessoas, não vender mapas que os levem à parques de diversões gospel. Posso usar várias roupas…. Tenho a de músico, professor, conselheiro, pesquisador, carregador de mala, diretor de missão, pregador, motorista, missionário… mas debaixo de todas estas cascas, reconheço que o que tenho mesmo, e recebi DEle, foi um simples coração de pastor.

Sou pobre, assumidamente pobre. Não tenho nada a oferecer a ninguém a não ser Ele, sua Palavra, seu exemplo, sua vida, sua graça. Busco intensamente a integridade pessoal e vocacional. Não aquela plástica, artificial, superficial dos sorrisos educados. A integridade que carrego é a de ser assumidamente quebrado. De possuir rachaduras e defeitos de fabricação com os quais preciso lidar todos os dias. Minha esperança é que por entre estas rachaduras, o óleo do Eterno, derramado sobre mim, possa escorrer pra aqueles que estão ao meu lado.

Por que resolvi escrever tudo isso? Porque no encontro de hoje pude refletir novamente em meu chamado… e pode ser que outros aí deste lado estejam se perguntando se vale a pena, se Ele se importa… Talvez estas linhas sejam encontradas por pessoas perto de jogar a toalha. Gente cansada de apanhar de si mesmo, do inimigo, da vida, de outros, da igreja (instituição)…. Talvez tenha alguém num canto escuro, pequeno, numa pequena comunidade na esquina do mundo se perguntando se é hora de parar.

Pra você, especialmente pra você que se sente assim quero dizer que vale a pena! Apesar de tudo, lembre-se que o chamado pastoral é a coisa mais gloriosa que existe debaixo do céu. E Ele confiou este privilégio a você. Derramou óleo sobre sua cabeça. Lhe chamou, lhe enviou…Não duvide, não tema, não trema, não desanime, não desista… Atire-se de cabeça nos braços do Eterno, em confiança e fé. Ele lhe sustentará! Não olhe para o lado, comparando-se com outros… Olhe pra cima, olhe pra dentro. Somente Ele pode avaliar o seu valor e a importância daquilo que você está fazendo. Ele não usa o padrão de sucesso humano como critério.

Hoje lembrei novamente que, assim como nosso Senhor Jesus Cristo, não fomos chamados para o palco, para a performance, e sim para a fidelidade, para os braços do Pai. Não fazemos o que fazemos porque nos assegura alguma vantagem ou nos trará algum lucro. Ao contrário, ministério é lugar de renúncia, é um constante caminhar para o altar de sacrifício. Pastoreamos pessoas porque, pra nós, é a coisa certa a fazer. É a única coisa que não conseguimos não fazer. O Eterno decidiu amar o mundo, as pessoas, cada pessoa, através de gente como nós. Que assim seja, mais uma vez. Vamos em frente!

(Em tempo, é preciso dizer que sem o apoio incondicional e a cumplicidade ministerial da minha esposa, Val Prado e filhos, e sem as orações, encorajamento e investimento de muitos irmãos-amigos, este ministério não seria possível. Fica aqui registrada minha enorme gratidão a todos que caminham ao meu lado).

Casa Azul

Casa Refúgio 1Refugiados enfrentam diariamente desafios enormes, inimagináveis para a maioria de nós; entre eles: a perda de identidade, violência, discriminação, fome, falta de abrigo, falta de esperança e perda de poder econômico. Encaram jornadas perigosíssimas, como atravessar desertos, zonas de guerra, oceanos, expondo a si mesmos e aos seus familiares à morte, agarrando-se num fio de vida. Tornam-se vulneráveis às redes de tráfico humano, exploração sexual e tráfico de órgãos, pagando um preço altíssimo a ‘coiotes’ que, na maioria das vezes, lhes matam depois de haverem recebido o dinheiro.

Os que conseguem chegar a São Paulo, se não forem amparados, acabam ficando nas ruas, em invasões e assentamentos ilegais ou em precários albergues públicos.

A “Casa Azul” é uma ‘casa de passagem’ que tem como objetivo oferecer abrigo temporário, porém digno e gratuito, para migrantes e refugiados em situação de risco e vulnerabilidade social, até que consigam uma solução mais definitiva para sua moradia. A partir dela, oferecemos aulas de Português, orientação para a obtenção de documentação, apoio médico, dentário, psicológico e pastoral.

Este projeto é mantido totalmente por doações de pessoas físicas, sem nenhum convênio governamental. A casa fica na zona Oeste de São Paulo.

Para participar deste projeto, clique aqui.

Paz e dignidade a todos, pois Ele nos quer bem!

Renato e JoséPor muitos anos ‘seu Renato’ foi um homem em ‘situação de rua’, um mendigo. Sem família ou amigos, isolado do mundo por conta da cegueira causada pela catarata, fazia seu ponto no Largo do Paissandu e dormia sob as marquises próximas. Cabeça curvada, ombros caídos, cabelo desgrenhado, roupas em trapos, sujas e fedidas, voz fraca, sua postura e condição corporal denunciavam seu estado de alma. Um morto-vivo. Escuridão, fome, solidão, desespero e angústia eram suas companheiras.

Conheci-o em junho de 2013, quando foi levado pela mão por outros mendigos ao albergue da Missão Cena. Sempre quieto, contrastando com a agitação e barulho do ambiente, ficava pelos cantos aguardando com resignação que lhe levassem o prato de comida. Naquele inverno, semana após semana, pude ministrar sobre a vida de Jesus, baseado no Evangelho de João. Ao final de cada noite, conversávamos e orávamos juntos.

Seu Renato destacava-se não só por sua vulnerabilidade, mas também por sua fé. Ao final da noite, um a um os albergados dirigiam-se pra suas camas. Seu Renato não. Negava-se a deitar-se enquanto não orássemos com ele. A foto abaixo registra um desses momentos. Algumas vezes estava já indo embora quando era exortado por um dos voluntários: “Pastor, não vai orar pelo seu Renato? Ele está lá, esperando”! Trago na memória a imagem dele em pé, ao lado do colchão, sozinho, com a cabeça curvada, aguardando a oração…

A operação do Evangelho na vida de uma pessoa nunca é fruto do esforço isolado de uma pessoa. Ao contrário, muitos são coparticipantes da santa obra do Espírito. Registro aqui, portanto, minha gratidão e admiração por todo pessoal da Missão CENA, pelo João Carlos Batista Boca, missionários (Josimar Chaves da Silva), muitos voluntários ( Filipe Marques Silva Lopes, Daniel Marques Silva, Edison Amaral Lopes) que com grande empenho, sacrifício e fé, durante anos, têm investido na vida deste e de muitos outros “Renatos”, até que a imagem de Cristo seja formada na vida destas pessoas.

Mas permita-me compartilhar esta enorme e indescritível alegria de fazer parte DESTA história! Em dias de tantas desesperanças e tragédias, a história do seu Renato é para mim um marco, um memorial a ser preservado e cuidado com todo carinho. O Eterno continua sendo Deus! Cristo continua sendo especialista em transformar vidas quebradas e o Espírito Santo continua agindo em meio ao caos de nossas cidades, trazendo vida e glória aos que, aos olhos do sistema-mundo, nada são.

Encontrei com seu Renato esta semana. Aguardava por este dia. Foi um longo e gradual processo, mas aqui está um novo homem em todos os sentidos. Cheio de vida, voz forte, postura ereta, rosto e roupas limpas… Convertido ao amor e graça de Cristo, curado da catarata, restaurado emocional e socialmente, trabalha com dignidade no centro de São Paulo, distribuindo simpatia e cordialidade a todos!

Quando nós, povo da cruz, mesmo com toda a nossa pequenez, seguimos as pegadas do nosso Senhor Jesus Cristo, e acreditamos na força do Evangelho do amor, e servimos as pessoas com desprendimento, e oramos com fé… o Reino do bem se manifesta em todo seu poder e graça e glória.

Na falta de melhores palavras, convido-lhe a parafrasear os anjos… Glória a Deus nas maiores alturas e paz, dignidade, vida, amor e graça a todas as pessoas, nesta terra ferida, pois Ele nos quer bem!

O misterioso, silencioso, subversivo e incontrolável mover do Eterno

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Queridos, estou de volta ao Brasil, ainda sob o impacto da viagem. Impossível resumir o que vi e ouvi. Expresso, contudo, minha convicção: Em meio a esta enorme tragédia dos milhões de deslocados na Síria, Líbano, Iraque, Jordânia e Turquia, há um misterioso, silencioso, subversivo e incontrolável mover do Espírito de Vida.

Algo inexplicável e maravilhoso está acontecendo longe da atenção da mídia, dos governos e até mesmo da igreja institucionalizada. Um exemplo: Visitei um campo chamado de “campo das viúvas”, a menos de 10 km das forças do Estado Islâmico. Nesta região há uma aglomeração de cerca de meio milhão de refugiados sírios. Todos ali perderam terras, casas, emprego, familiares…

Gente que carrega camadas e mais camadas de diferentes lutos. Sem recursos para irem a outro lugar, tolerados por alguns, rejeitados violentamente por outros, submetidos às mais degradantes condições de vida, em frágeis barracas de lona, dependem diariamente da boa vontade de terceiros, que muitas vezes lhe exploram e violentam ainda mais.

Num cenário assim seria fácil se deixar convencer e abater pelos evidentes sinais de morte. Mas é justamente ali que o Eterno está agindo. Há uma enorme fome de vida, de genuína e abundante vida. O antigo poço em que bebiam secou-se repentinamente e tornou-se para eles uma fonte de veneno e morte. Seus próprios irmãos são os algozes de seu holocausto e aqueles que poderiam socorrer-lhes silenciam, afastam-se, dão-lhes as costas.

A magia da serpente, que lhes cegava e oprimia, está rapidamente esvaindo-se e, a cada dia, centenas, milhares (quem poderá contar?), acordam do sono da morte.

A primeira coisa que fazem ao acordar do sono da morte, do encanto da serpente, é perguntar por Jesus. Ah… Como é doce este Nome em seus lábios! Como têm fome de conhecer sua história, seus ensinos, seus milagres… Com o apoio de poucos mas valorosos voluntários do povo da Cruz, crianças e adultos aprendem a orar em nome de Jesus, que não se nega a lhes responder! Assim, respostas, curas e milagres são operados em resposta às preces sinceras e cheias de fé dos pequeninos. Estes sinais somente confirmam de forma inequívoca no coração deles que o Cordeiro está vivo e atento à sua dor! Não estão sozinhos, podem ter esperança!

À noite nos acampamentos ouve-se um rumor… Pouco a pouco vai se tornando mais forte que os gemidos de dor e de luto. É o som de centenas de grupos que se reúnem, informalmente, espontaneamente, nas frágeis barracas, pra contar, comentar e admirar as histórias do Messias.

Aqueles que conseguem ir em direção à Europa levam consigo, por onde passam, de cidade em cidade, de campo em campo, sua nova fé e esperança. Os mais pobres entre os pobres, os mais fracos, os vulneráveis e desprezados, encontraram força, esperança, vida e graça no testemunho de Jesus, o Cristo. Quem lhes impedirá de falar?

Quem poderia pensar, planejar ou sonhar com isso? Como disse Paulo, o apóstolo: “Ó profundidade da riqueza, da sabedoria e do conhecimento de D’us! Quão insondáveis são seus juízos e inescrutáveis os seus caminhos! Quem conheceu a mente do Senhor ou foi seu conselheiro…?”

Ficam as perguntas: as igrejas ressequidas do Oriente Médio e do Velho Continente acolherão estes novos irmãos? Deixar-se-ão evangelizar por estes pobres? Verão neles a face do Messias? Receberão deles este sangue novo, este novo alento vindo do Pai, ou também lhes rejeitarão como seus antigos irmãos?

E nós aqui do Brasil? Ficaremos à distância, olhando passivamente este mover extraordinário do Eterno, ou vamos somar forças e fazer o que estiver ao nosso alcance pra participar?

Continuo precisando de sua oração. Há muitas perguntas não respondidas. Como agir? O que priorizar? Quais projetos apoiar? Com quem nos associar? Busco no Senhor o discernimento, a sabedoria, a coragem, humildade e fé pra seguir as pegadas do Espírito. Almejo receber DEle os planos, os sonhos, os projetos.

Que tempo maravilhoso vivemos, não é mesmo?

Sou grato a todos que fizeram possível esta viagem e que oraram por mim e minha família. Fui tremendamente abençoado e me sinto ainda mais motivado a continuar. Grande abraço!

Refugiados sírios vivem como sem-teto em SP

 

 

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Ore comigo por estas famílias. A maneira mais fácil de lidar com esta realidade é dizer que são responsabilidade do governo; quem sabe caiba uma denúncia. Esta, porém, não é a única resposta. Existe um outro caminho, árduo, sacrificial, cristão, subversivamente evangélico que poucos estão dispostos a seguir. Estou orando por parceiros que estejam dispostos a agir e seguir comigo. Se você for um deles, ore novamente e entre em contato. 

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Eles fugiram de 28 cidades na Síria, todas destruídas pela guerra que afeta o país há mais de quatro anos. Há dois meses, vivem juntos nos andares mais altos de um antigo prédio comercial, recém-ocupado por famílias sem-teto.

[Ricardo Senra; BBC Brasil em São Paulo; 16 set 2015] Longe de milícias, rebeldes armados e exércitos, esses 51 árabes – incluindo sírios, palestinos, egípcios e uma marroquina – tentam recomeçar suas vidas em um bairro de nome sugestivo no centro de São Paulo.

Estão na Liberdade – depois de cruzarem a fronteira síria, passarem pela Embaixada brasileira no Líbano, fazerem escala nos Emirados Árabes, aterrissarem em Guarulhos e tentarem, em vão, vagas em abrigos públicos e hotéis baratos na região do Brás.

Líder no ranking de países que mais recebem refugiados de guerra na América do Sul, o Brasil promete ampliar a emissão de vistos para refugiados de países em guerra. Mas estes estrangeiros reclamam de dificuldades – especialmente em São Paulo, onde o valor dos aluguéis dobrou nos últimos sete anos (a inflação no período foi de 54%).

À BBC Brasil, eles narram a tristeza da perda de pessoas queridas para a guerra, as dificuldades para recomeçar a vida do outro lado do mundo e revelam esperança – tanto no futuro no Brasil, quanto em reerguerem um dia suas velhas casas.

Duplo exílio

Nos salões de piso gasto de madeira, onde já funcionaram firmas de advocacia e contabilidade, os estrangeiros dormem em colchões distribuídos pelo chão, próximos a malas que cruzaram oceanos com roupas, café, cigarros e o Corão, livro sagrado do islã.

A precariedade do prédio ocupado por mulheres de véu e homens com marcas do front de guerra é compensada com organização pelos novos moradores. Costume árabe, ninguém anda de sapatos dentro do salão. Os colchões têm roupa de cama esticada, a louça está lavada e camisas são enfileiradas em um cabide velho de loja.

Somos recebidos com “Salaam Aleikum” (saudação árabe) e chá preto servido em copos de requeijão.

A pequena Falasten, de 10 anos, arrisca o português: “Bom dia”, “Sejam bem-vindos”. Mas o idioma predominante ali é o árabe – interrompido por frases vagas em inglês, aprendidas na escola, quando não havia guerra.

A maior parte destes refugiados tem origem palestina e vivia no perigoso campo de Yarmouk, nos arredores de Damasco, capital síria.

Segundo a ONU, 18 mil pessoas resistem hoje no local “sob constante ameaça de violência armada, sem condições de acesso a água, comida e serviços básicos de saúde”.

Para alguns dos mais velhos, o pouso em São Paulo representa um segundo exílio. Antes de se mudarem com as famílias para a Síria, eles viveram encurralados sob o fogo cruzado entre israelenses e palestinos.

‘Sinto falta da minha respiração’

Amina não vai à escola há três anos por conta da guerra. No período, ela viu amigos e dois primos morrerem e precisou dormir com a família em tendas improvisadas após bombardeios destruírem sua casa. “Todos os lugares na Síria estão em guerra”, sussurra a jovem, coberta por uma túnica de flores brancas que só deixa ver seu rosto, suas mãos e seus pés. Ainda assim, com sorriso triste, diz querer voltar. Junto ao pai (que trabalhava como comerciante na terra natal), à mãe e a seis irmãos, ela está no Brasil há duas semanas – e, como as irmãs, nunca saiu sozinha do salão onde dorme sem qualquer privacidade.

“Sinto falta da vida”, diz Amina, agora com voz forte, em uma escalada que só é interrompida pelo choro. “De meus amigos na Síria. Meus parentes na Síria. Todo mundo na Síria. A vida na Síria. Minha respiração na Síria. Meu coração na Síria.” Sua mãe, Hiba, primeiro sorri. Depois chora também.

Entrar no Brasil

Só o Brasil me deu visto. Só”, conta o cozinheiro Mohammed, em frente a dois maços de Marlboro Light com dizeres em árabe. “Não o Líbano, não a Turquia, não a Europa, não a Arábia Saudita. Só o Brasil.” Como a maioria dos colegas – entre eles economistas, comerciantes, chefs de cozinha e até um mergulhador -, ele não consegue emprego com carteira assinada e admite que preferiria a Europa ao Brasil. “É melhor, tem mais dinheiro. Mas é mais perigoso.”

No Brasil, diferente de países europeus como Alemanha, o governo federal não oferece ajuda financeira a refugiados de guerra. A lei de refúgio brasileira, de 1997, considera a “violação generalizada de direitos humanos” para o reconhecimento de refugiados, seguindo a Declaração de Cartagena sobre a Proteção Internacional de Refugiados, de 1984.

No caso específico da Síria, o Conare (Comitê Nacional para Refugiados, ligado ao Ministério da Justiça) facilita oficialmente a entrada no país de fugitivos da guerra. O procedimento se repete diariamente: a Embaixada brasileira em Beirute, no Líbano, emite vistos de turista válidos por 90 dias para pessoas de diferentes nacionalidades que vivem na Síria.

Assim que chegam ao Brasil, eles são orientados a procurar a Polícia Federal para darem entrada em seu pedido de refúgio (que demora até dois anos para ficar pronto). O pedido, entretanto, gera imediatamente um protocolo, que já permite aos refugiados tirar documentos como CPF e carteira de trabalho antes mesmo do visto definitivo.
Até o início da guerra, em 2011, só 16 sírios viviam refugiados no Brasil, segundo a Acnur (agência das Nações Unidas para refugiados). Hoje são mais de 2 mil.

Viver no Brasil

Os entrevistados dizem conseguir ganhar, no máximo, R$ 1 mil por mês, em jornadas de trabalho que começam às 7h e terminam depois das 22h. Com famílias de até 8 pessoas, eles dizem que precisam de tempo até garantir os recursos necessários para pagar aluguel na cidade, onde é difícil, mesmo na periferia, encontrar um único quarto por menos de R$ 500.

A profissão mais comum é a de cozinheiro – o perfume de esfirras e doces assados sobe pela escadaria escura do prédio -, além do ofício de camelô.

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Do salão onde dorme Abdel, além do cheiro de comida emanam acordes acelerados de alaúde, instrumento de corda popular no Oriente Médio. “Neste momento, não penso em voltar para Síria”, diz o músico profissional, que no Brasil trabalha fabricando doces como barazeq (de gergelim e mel), basboosa (bolo de trigo) e halwa (biscoito de gergelim e açúcar derretido). Ele vivia com parentes em um prédio de seis andares que foi bombardeado três vezes, até se reduzir a escombros.

“Ninguém sabe para onde caminha a guerra na Síria”, diz.

‘Navio negreiro’

Já a caminhada até o prédio ocupado ocorreu pelas mãos de Hasan Zarif, brasileiro de origem palestina, membro do Terra Livre, movimento que defende o direito a moradias populares no país.

“Encontramos essas pessoas dividindo o segundo andar de sobrados mínimos com mais de 50 refugiados”, conta. “Então os convidamos a vir para a ocupação. Depois que veio a primeira família, encheu em dois, três dias, e agora temos mais 50 pessoas na lista de espera.” A fila, explica Zarif, seria fruto da falta de vagas disponíveis em abrigos públicos – onde a demanda de moradores de rua já supera a disponibilidade de leitos.

“Quem está do outro lado sempre acha que está fazendo um favor, um ato de bondade”, diz a professora Rita de Cássia do Val, consultora do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados. “Mas não estamos falando de caridade, estamos falando de cidadania.”

Para ela, há uma “fantasia” entre muitos empregadores de que imigrantes aceitam qualquer tipo de trabalho, sob quaisquer condições. “Muito pelo contrário. Muitos têm nível de politização e formação maior que o do brasileiro médio. E esses sujeitos não podem admitir serem tratados de maneira indigna.”

Ela lembra que os refugiados “são mais gente consumindo, pagando impostos e trazendo novas experiências culturais e profissionais ao mercado”. O mesmo vale para os que ainda não encontraram emprego formal. “A carga tributária no Brasil é altíssima. Um vendedor de guarda-chuvas na porta do metrô também paga imposto quando compra uma coxinha.”

Sobre uma suposta “competição” com nativos por empregos, Val diz que a crise dos refugiados abre espaço para que o mundo “repense conceitos antigos” de limites territoriais. “Não dá para construir muros, tudo o que acontece no vizinho ou num pais distante vai me impactar”, diz. “Os setores produtivos dependem dos imigrantes. Se todos forem embora, os países param.”

As dificuldades para a validação de diplomas profissionais e o preconceito entre empregadores é a mesma, no Brasil e no exterior, diz a professora. “É preciso que se saiba que os refugiados não são escravos nem representam novos navios negreiros. São apenas trabalhadores que querem trabalhar, dignamente, como eu e você.”

Imagens: Chuck Tayman e Gabriel A. Fotos e Edição: Gabriel A.

‘Meus amigos brasileiros me queimaram’, disse senegalês atacado em Santa Maria

“Meus amigos brasileiros…”? É assim que um jovem senegalês recém atacado por bárbaros, se refere a nós… Crime covarde, cruel, racista, inaceitável. Mais um ato de violência contra um imigrante negro no RS, terra formada 90% de imigrantes! Que o povo e as autoridades de Santa Maria não descansem enquanto não identificarem e punirem os culpados. Não basta abrirmos nossas fronteiras, é preciso multiplicar casas de acolhimento e centros de integração para os que chegam. Já passou da hora das igrejas se envolverem nesta causa. Até quando nos rebelaremos contra a Palavra expressa do Eterno? “Amem – acolham, protejam, socorram- o estrangeiro”!!! Dt 10.19

Quer mudar isto? Entre em contato comigo. ‪#‎XenofobiaNão‬ ‪#‎AcordaIgreja‬ ‪#‎AmeOEstrangeiro

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Cheikh Oumar Foutyou Diba, 25 anos, pediu ajuda em uma padaria depois de ser assaltado. O colchão onde ele dormia foi queimado. O grupo Direitos Humanos e Mobilidade Humana Internacional (Migraidh), da UFSM, assumiu os cuidados pela saúde e bem-estar de Cheikh Oumar Foutyou Diba. Por volta das 8h30min de sábado, o jovem senegalês de 25 anos foi vítima de um assalto e teve parte do corpo incendiado, enquanto dormia, na Avenida Rio Branco, na área central de Santa Maria.

[Zero Hora, 13 set 15] Três homens que o atacaram colocaram fogo no colchão do rapaz, que sofreu queimaduras nas pernas e em um dos braços. Os suspeitos fugiram, levando uma maleta com as bijuterias que ele costuma vender pelas ruas da cidade, R$ 500 e os tênis que ele usava.

De acordo com Lidiane Silveira Rocha, funcionária da Padaria Shalom, localizada na Avenida Rio Branco, Diba procurou o local para comer. Devido às queixas de dor e ao choro do jovem, ela e outras funcionárias perceberam que ele estava machucado.

Dioneia Beck, proprietária do estabelecimento, tentou ajudar Diba com medicamentos para dor e com comida. Mas, ao perceberem que as queimaduras eram graves, elas entraram em contato com o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), e foram informadas que eles não atendiam a esse tipo de ocorrência, sem gravidade. O próximo passo foi ligar para a Brigada Militar (BM), onde atendentes acionaram o Corpo de Bombeiros. Em seguida, o imigrante foi levado para a Unidade de Pronto-Atendimento (UPA), onde recebeu os curativos necessários.

A Lidiane, Diba disse “meus amigos brasileiros me queimaram”.

Como o caso não foi considerado de alta gravidade, ele teve alta no fim da tarde de sábado, tendo sido acolhido por integrantes do Migraidh, que ofereceram hospedagem e demais cuidados.

Segundo informações da professora Giuliana Redin, coordenadora do Migraidh, Diba está “muito assustado e até um pouco constrangido” com as ofertas de ajuda.

– Ele está bem fechado. Soube que ele falou pouco e chorou muito  – comenta.

Às 18h deste domingo, integrantes do grupo farão uma reunião para definir os próximos passos, tanto no levantamento das necessidades da vítima – que precisa fazer curativos duas vezes ao dia e tomar medicamentos –, quanto na apuração de responsabilidades.

Imigrante legal

O jovem informou ao Migraidh que veio de Sapucaia para Santa Maria há cinco dias, e que estava hospedado no Albergue Municipal – porém, na sexta-feira, não conseguiu chegar na instituição antes do horário de fechamento.

Segundo informações da Polícia Federal – que deve abrir investigação nesta segunda-feira – Cheikh Oumar Foutyou Diba está regularizado no país e que tem passaporte.

Mas a professora Giuliana Redin, coordenadora do Migraidh, esclarece que é dever do Estado assegurar a integridade dos imigrantes, independentemente de estarem “legalizados”.

– A condição de documentação é absolutamente irrelevante em se tratando do compromisso do Estado com a proteção dos direitos humanos do imigrante. O ato de migrar não é crime, então não existe imigração legal ou ilegal – explica.

A quebrada só pede paz, e mesmo assim, é um sonho!

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Fui até o Jardim Munhoz, Osasco, hoje à tarde (9 set 15), com três amigos, tentar localizar as famílias vítimas da chacina de 13 ago. Não tínhamos contatos, telefones, muito menos endereços. Somente o nome da rua de um dos bares onde dez pessoas foram alvejadas; destas, oito morreram. No total, foram dezenove mortos naquela noite.

Não demorou muito, porém, pra encontrarmos testemunhas e familiares das vítimas. As lágrimas e a dor na face enrugada da gentil senhora de cabelos brancos também brotaram rápido, confrontando-nos com a face humana da tragédia. Nossa intenção era mostrar solidariedade, dizer que nos importávamos e ver se poderíamos apoiá-los de alguma forma.

O que vimos, ouvimos e sentimos, porém, está além do que palavras podem expressar. Clima tenso. Sinistro. Pesado. Mesmo após quase um mês, ninguém quer falar. Olhares desconfiados, raivosos. Fomos filmados, fotografados. Atentamente observados por muitos… Nós, ao contrário, fizemos questão de não fotografar e não registrar nada. “Muitos já vieram aqui, tiraram fotos e nada mudou”. “Não adianta, isso vai ficar assim mesmo. Já aconteceu antes”. Pensei em argumentar, mas não encontrei palavras… “Esse pessoal pode voltar e fazer coisa pior”.

Desesperança. Ódio. Impotência. Angústia. Baixa auto estima.

O que dizer a uma mãe que perdeu seu filho único, jovem, negro, estudante (“me sacrifiquei pra que estudasse em escola particular…”), que havia criado sozinha após ser abandonada pelo marido… filho este que havia chegado e recebido como um milagre depois de 5 abortos espontâneos….

Ouvimos. Choramos. Oramos. Abraçamos.

Será que o Reino de Deus cabe em um abraço, um olhar, um aperto de mão? Nossa prece, silenciosa, respeitosa, carregada de esperança, é que, sim, o Reino de justiça e paz do Eterno Deus chegue até eles. Que recebam respeito e dignidade por parte das autoridades. Que lhes façam justiça. Mas muito mais que justiça, repeito e dignidade, que encontrem graça, muita graça. ‪#‎QuemMatou19‬

Domingo, 13 set, quando se completa um mês da chacina, o Rio de Paz (Núcleo SP) estará na Av Paulista, no vão do Masp, das 16h às 19h, protestando silenciosa e reverentemente. Buscamos respostas do Governo Paulista. Não conseguimos mais conviver com o descaso, a injustiça, com a inércia e indiferença. Se achar que deve, compareça.

Bem aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão fartos.

Assassinatos de indígenas disparam no Brasil, comprova relatório do Cimi

Brasil, Santa Cruz Cabrália, BA. 22/04/2000. Polícia impede marcha de índios que partiu do povoado de Coroa Vermelha em direção a Porto Seguro, próximo de Santa Cruz Cabrália, na Bahia. A manifestação, que fez parte do movimento "Brasil, Outros 500", foi realizada durante as comemorações dos 500 anos do descobrimento do Brasil e acabou reprimida com bombas de gás. - Crédito:VALTER PONTES/COPERPHOTO/AE/Codigo imagem:106658

Brasil, Santa Cruz Cabrália, BA. 22/04/2000. Polícia impede marcha de índios que partiu do povoado de Coroa Vermelha em direção a Porto Seguro, próximo de Santa Cruz Cabrália, na Bahia. A manifestação, que fez parte do movimento “Brasil, Outros 500”, foi realizada durante as comemorações dos 500 anos do descobrimento do Brasil e acabou reprimida com bombas de gás. – Crédito:VALTER PONTES/COPERPHOTO/AE/Codigo imagem:106658

O relatório ‘Violência contra os Povos Indígenas do Brasil’, referente a 2014, aponta um aumento dos casos de violência e violações contra integrantes das comunidades indígenas. No período, 138 índios foram assassinados, contra 97 casos no ano anterior. Um dos dados mais alarmantes é o número de suicídios, que chegou a 135, ante 73 ocorrências em 2013.

[Publicado originalmente na Agência Senado, 7 ago 2015] Produzido pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi), organismo vinculado à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), o relatório foi debatido em audiência pública nesta quarta-feira (5), na Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa (CDH). A antropóloga Lúcia Helena Rangel salientou que o relatório ainda é uma expressão parcial da realidade, pois o Cimi não consegue captar todas as ocorrências em todo o País.

“Mesmo assim, os registros são assustadores”, comentou a antropóloga, coordenadora da pesquisa.

O debate foi proposto pelo senador Telmário Mota (PDT-RR), que se revezou na direção dos trabalhos da audiência com o presidente da comissão, Paulo Paim (PT-RS). Na avaliação dos convidados, os fatores de estímulo à violência são antigos e decorrem fundamentalmente da negação do direito à terra, da disputa em torno de áreas indígenas e conflitos possessórios.

“O que vemos é o não reconhecimento, por parte do Estado, às comunidades indígenas, que permanecem tendo seus direitos negados”, observou Lúcia Rangel.

Mesmo no caso dos suicídios, o entendimento é de que em grande medida as ocorrências estão relacionadas à falta de perspectivas para indivíduos que precisam da terra para viver e trabalhar, em harmonia com suas culturas. Os 135 casos de 2014 configuram o maior número em 29 anos, com predomínio de ocorrências no Mato Grosso do Sul (48), notadamente entre índios Guarani-kaiowá.

A mortalidade na infância foi ainda apontada como indicador de situação de violação de direitos: o relatório registra 785 mortes de crianças indígenas, na faixa de 0 a 5 anos, contra 693 no ano anterior. A situação mais grave se situa entre os índios Xavantes, no Mato Grosso, com a taxa de mortalidade chegando a impressionantes 141,64 mortes por mil crianças. Já média nacional registrada pelo IBGE, em 2013, foi de 17 por mil.

Segundo o relatório, em 2014 mais do que dobraram os registros de invasões possessórias, exploração ilegal de terras indígenas e outros danos ao patrimônio. Enquanto em 2013 foram 36 ocorrências, em 2014 aconteceram 84 casos.

Funai

O ex-senador João Pedro Gonçalves da Costa (PT), que assumiu em junho passado o comando da Fundação Nacional do Índio (Funai), destacou a importância da audiência diante da “dívida histórica” que o País tem com os povos indígenas. Reconheceu que é essencial avançar na questão das terras indígenas. “Não pode haver índio sem terra; os povos indígenas não podem viver sem história do lugar ponde pisaram seus ancestrais”, defendeu.

João Pedro anunciou a intenção de percorrer de imediato as aldeias de todo o País, começando pelo Mato Grosso, lugar de conflitos possessórios mais graves. Também salientou o papel do Congresso e do Judiciário, além de Estados e prefeituras, na solução dos problemas. Depois, apelou aos senadores por apoio para reforçar o orçamento da Funai, por meio de emendas parlamentares.

Entre os senadores, as manifestações foram de solidariedade às demandas dos povos indígenas. Para a senadora Simone Tebet (PMDB-MT), existe a perspectiva de solução para os conflitos sobre terras. Mostrou otimismo com a aprovação de proposta de emenda constitucional (PEC 71/2011) que prevê pagamento de indenizações a produtores que estejam em posse “mansa e pacífica” das terras, o que agilizará a devolução das áreas aos índios.

“Estratégia de ataque”

O secretário-executivo do Cimi, Kleber Cesar Buzato, denunciou o que definiu como a “estratégia anti-indígena” no País. Um dos objetivos seria impedir o reconhecimento e a demarcação das terras tradicionais que continuam invadidas, na posse de não-índios. Outro seria reabrir e rever procedimentos de demarcação já finalizados. Por fim, disse que há ainda o interesse em invadir, explorar e mercantilizar as terras já demarcadas e sob a posse de índios.

“Se não tomarmos iniciativas muito firmes, coordenadas e articuladas, a tendência é de se aprofundar ainda mais esse quadro de violências contra os povos indígenas”, alertou.

Em seguida, Buzato listou iniciativas e decisões adotadas, em separado, pelo Executivo, Legislativo e o Judiciário que, a seu ver, traduzem interesses de ruralistas, mineradoras e empreiteiras, entre outros segmentos do mercado. Uma delas seria o Decreto 7.957/2013), que regulamenta a atuação das Forças Armadas no “combate a povos e comunidades locais” que resistirem a empreendimentos em seus territórios. Outra veio por meio da Portaria Interministerial 60/2015, que define procedimentos a serem seguidos pela Funai para licenciamento ambiental de empreendimentos que impactam essas terras.

No âmbito do Legislativo, um dos projetos é o PL 161/1996, da Câmara dos Deputados, que regulamenta a mineração em terras indígenas, com abertura à exploração pelo setor privado, que hoje é vedada. Foi citada ainda uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC 215/2000), que transfere ao Congresso o poder de demarcar e rever a processos de terras indígenas já demarcadas.

“Na prática, significa atribuir à bancada ruralista o poder de decidir ou não sobre a demarcação das terras. Se aprovada, a tendência é não passa mais nada”, comentou.

Quanto ao Judiciário, Buzato mencionou julgamento da 2ª Turma do Supremo Tribunal Federal que atribuiu interpretação mais restritiva a dispositivo constitucional que define o conceito de “terra tradicionalmente ocupada pelos povos”. Com base nessa decisão, segundo ele, foi possível anular atos administrativos de demarcação de terras de povos Guarani-Kaiowá e Terena, no Mato Grosso do Sul, e do povo Canela-Apãniekra, no Maranhão.

Desamparo

Alberto Terena, representante do Povo Terena e da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), afirmou que os povos indígenas e seus líderes vivem uma situação de desespero diante do permanente desrespeito a seus direitos. Segundo ele, a luta não começou com a atual geração nem as anteriores, mas desde que os colonizadores europeus ocuparam o País. Lembrou que os Terena, hoje com mais de seis mil indivíduos, dispõem de reserva com pouco mais de 2 mil hectares e esperam longamente pela devolução de terras esbulhadas.

“Achavam que éramos poucos e que seríamos exterminados ou integrados à sociedade. Mas isso não aconteceu, e a nova geração se multiplica; por isso, precisamos das nossas terras”, comentou.

Outro líder, Kâhu Pataxó, da Federação Indígena das Nações Pataxó e Tupinambá do Extremo Sul da Bahia, relatou a ocorrência de regulares conflitos na região e o assassinato de índios que lutam pela recuperação de suas terras. Também denunciou o uso excessivo de força, seja por efetivos da Polícia Federal ou da Polícia Militar do estado, na tentativa de retiradas dos índios das terras. A seu ver, esses conflitos vão de fato se agravar se vier a ser aprovada a PEC 215.

“O que vamos ver é o extermínio final dos índios”, comentou, antecipando que as comunidades estão dispostas a dar a vida para garantir suas terras.

Antonio Carlos Moura, que falou pela Comissão Brasileira de Justiça e Paz, também vinculada à CNBB, também apontou ações de “conluio” entre o Estado brasileiro e segmento econômicos na continuidade do esbulho de terras e direitos dos índios. Destacou a recente encíclica do papa Francisco como fonte de inspiração para luta pelo reconhecimento desses direitos.

Participou ainda da audiência a antropóloga Patrícia de Mendonça Rodrigues, que comoveu colegas e plateia com o relato da história dos Avá-Canoeiro do Araguaia, também mencionada no relatório da Comissão Nacional da Verdade, de 2014. Caçadores, eles chegaram à região fugindo das frentes de colonização. Por seguidas gerações, foram atingidos por incêndios de aldeias, ações de caçadores de índios e ataques de tribos inimigas, com sucessivos massacres.

Já reduzidos a menos de dez indivíduos, foram então pegos, com a ajuda de agentes do aparelho de repressão. Passaram a viver em área de uma fazenda do Bradesco, submetidos a violências e privações. Só não desapareceram completamente porque se reproduziram, por meio de uniões com indivíduos de outras etnias (Javaé, Tuxá e Karajá). Hoje somam pouco mais de 20 pessoas.

Países europeus não são os mais impactados por fluxo de refugiados

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[Susana de Deus, UOL, 27 jul 2015] O aumento do número de pessoas que arriscam suas vidas, fugindo de conflitos sangrentos que assolam diversos países da África subsaariana ou buscando condições dignas de sobrevivência para si e suas famílias, colocou a Europa estado de alerta.

Táticas militares foram traçadas para coibir a imigração, fronteiras foram fechadas e inúmeras reuniões feitas para se discutir a desestabilização que a chegada dessas pessoas pode causar à economia europeia. Em meio a todas essas discussões, uma informação passa despercebida: não são os países europeus os mais impactados pela imigração e o influxo de refugiados no mundo.

A maioria daqueles que se veem levados a deixar seus países de origem acaba permanecendo nos arredores, muitos com a esperança de retornar tão logo o conflito retroceda. A atuação de Médicos Sem Fronteiras na maioria desses contextos de violência nos faz menos otimistas do que essas pessoas que levam consigo quase nada além de esperança.

A continuidade dos conflitos e das situações de insegurança fazem crer que o número de refugiados não deve retroceder. E o debate acerca da garantia de seus direitos, sua dignidade e acesso à ajuda humanitária precisa ser priorizado.

Entre os dez países que abrigam o maior número de refugiados no mundo, não há um país europeu sequer. A relação divulgada pela agência da ONU para Refugiados é liderada pela Turquia, seguida de Paquistão e Líbano. Na lista constam ainda Irã, Etiópia, Jordânia, Quênia, Uganda e Chade.

Na Nigéria, a violência perpetrada pelo Boko Haram provocou a fuga de mais de 18 mil pessoas que foram buscar proteção na região do Lago Chade, desde o início do ano. Do outro lado da fronteira, essas pessoas encontram uma situação de pobreza extrema e um nível de insegurança ainda significativo, que já motiva o deslocamento interno da própria população do Chade.

Esse não é único destino dos nigerianos nos arredores. Desde janeiro de 2015, os vizinhos Níger e Camarões também recebem milhares de refugiados – já se somam quase 140 mil. A crise nigeriana está acentuando uma situação já precária, afetando populações que já eram extremamente vulneráveis.

Sair do país em que nasceu, deixando para trás casa, amigos e familiares para se tornar um refugiado, definitivamente, é das mais difíceis decisões. É uma opção amparada em desespero. Nos três barcos usados por MSF no resgate de refugiados em meio à perigosa travessia pelo Mar Mediterrâneo, histórias como a da nigeriana Sandra se repetem. Grávida de oito meses, ela era a única mulher no meio dos 92 homens resgatados de um barco inflável à deriva em 13 de maio.

Sandra havia imigrado da Nigéria para a Líbia e não considera mais voltar para seu país de origem. Para não viver em meio à violência de incessantes confrontos, ela e o marido decidiram que a melhor saída seria arriscar a vida da mãe e do bebê na travessia que, só este ano, já matou 1.800 pessoas rumo à Europa. O marido ficou na Líbia trabalhando. Sandra seguiu com o cunhado, que havia deixado a Nigéria para acompanhá-la. Foram duas das 5.555 pessoas resgatadas pelos barcos de MSF até agora.

As pessoas que arriscam suas vidas nessas viagens, frequentemente, são as mesmas que assistimos em seus países de origem, como Nigéria, Líbia, Síria e Sudão. E, em contato com essas pessoas, nossas equipes constataram o óbvio: não se pode dissociar a narrativa da travessia das histórias épicas das quais elas fazem parte.

Estamos num momento da história muito triste e peculiar. Desde a segunda guerra o mundo não via um deslocamento tão grande de pessoas. E talvez nunca se tenha visto tantas portas fechadas a quem, desesperadamente, clama por proteção. A humanidade não pode falhar com essas pessoas.

É fundamental que cobremos da Europa, e de outros continentes que estão recebendo os refugiados, a dignidade humana a que elas têm direito. As ações precisam ser concretas e pautadas na compaixão pelas pessoas, em substituição ao discurso hostil da rejeição institucional.

Susana é diretora-geral da Médicos Sem Fronteiras Brasil

Asleep in the Light ~ Keith Green

Asleep in the Light ~ Keith Green

Do you see, do you see
All the people sinking down
Don’t you care, don’t you care
Are you gonna let them drown

How can you be so numb
Not to care if they come
You close your eyes
And pretend the job’s done

“Oh bless me Lord, bless me Lord”
You know it’s all I ever hear
No one aches, no one hurts
No one even sheds one tear

But He cries, He weeps, He bleeds
And He cares for your needs
And you just lay back
And keep soaking it in,
Oh, can’t you see it’s such a sin?

Cause He brings people to you door,
And you turn them away
As you smile and say,
“God bless you, be at peace”
And all heaven just weeps
Cause Jesus came to you door
You’ve left him out on the streets

Open up open up
And give yourself away
You see the need, you hear the cries
So how can you delay

God’s calling and you’re the one
But like Jonah you run
He’s told you to speak
But you keep holding it in,
Oh can’t you see it’s such a sin?

The world is sleeping in the dark
That the church just can’t fight
Cause it’s asleep in the light
How can you be so dead
When you’ve been so well fed
Jesus rose from the grave
And you, you can’t even get out of bed

Oh, Jesus rose from the dead
Come on, get out of your bed

How can you be so numb
Not to care if they come
You close your eyes
And pretend the job’s done
You close your eyes
And pretend the job’s done

Don’t close your eyes
Don’t pretend the jobs done
Come away, come away, come away with Me my love,
Come away, from this mess, come away with Me, my love.

Do you see, do you see
All the people sinking down
Don’t you care, don’t you care
Are you gonna let them drown

Acolherei o Estrangeiro!

old woman

Conforme atestou a ACNUR em sua nova edição do relatório Tendências Globais (Global Trends), divulgado em 18 de junho de 2015, vivemos uma crise humanitária mundial sem precedentes, com cerca de 60 milhões de pessoas deslocadas à força, sendo que destes, 20 milhões são refugiados e 40 milhões deslocados internos (IDPs).

Seja nos países de origem, de refúgio, de trânsito ou de reassentamento, a igreja tem um papel essencial e único a desempenhar na promoção da tolerância, da cultura de paz, para que os deslocados à força possam recuperar-se do trauma causado pelo desastre humanitário que sofreram e sejam inseridos efetivamente na nova sociedade.

Reconhecendo esta realidade, em dezembro de 2012, o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados organizou um Diálogo com líderes religiosos de diferentes credos, organizações humanitárias confessionais, acadêmicos e representantes governamentais de vários países ao redor do mundo sobre o tema “Fé e Proteção”. Em resposta a esta convocação, de fevereiro a abril de 2013, uma coalizão de organizações humanitárias confessionais e instituições acadêmicas, entre elas a Aliança Evangélica Mundial (WEA) e a Visão Mundial (World Vision International), ambas de corte evangélico e com expressiva presença mundial, participaram na elaboração do documento “Acolher o Estrangeiro: Afirmações para líderes de comunidades de fé”.

As afirmações (transcritas abaixo) têm como alvo inspirar líderes de todos os credos a “acolher o estrangeiro” com dignidade, respeito e amor. Como observou Antonio Guterres, Alto Comissário das Nações Unidas para Refugiados:

“…para a vasta maioria das pessoas desarraigadas, poucas coisas são tão poderosas em ajudá-las a superar o medo, a perda, a separação e a destituição, como a sua fé. A fé é central também para a esperança e a resiliência … em muitas circunstâncias, os deslocados se voltam primeiramente às comunidades religiosas locais em busca de proteção, assistência e aconselhamento. As organizações de fé frequentemente desfrutam de altos níveis de confiança na comunidade, têm um melhor acesso e conhecimento local mais amplo, todos os quais são importantes fatores na elaboração e execução de programas, inclusive em ambientes complexos e inseguros.”

Confira as afirmações. Reflita. Você está pronto a acolher o estrangeiro? Então, que tal envolver outras pessoas? O Mestre da Galiléia já disse: “fui estrangeiro, e me acolheste..”.

Um valor central da minha fé é acolher o estrangeiro, o refugiado, o deslocado interno, o outro. Eu lhes tratarei como eu mesmo gostaria de ser tratado. Eu convidarei os demais, inclusive os líderes da minha comunidade de fé, a fazer o mesmo. Junto com os líderes de fé, as organizações religiosas e as comunidades de consciência ao redor do mundo, eu afirmo:

Acolherei o estrangeiro.

Minha fé ensina que a compaixão, a misericórdia, o amor e a hospitalidade são para todos: o nascido no país e o nascido no estrangeiro, o membro da minha comunidade e o recém-chegado.

Recordarei e farei recordar aos membros da minha comunidade que todos somos considerados “estrangeiros” em algum lugar, que devemos tratar o estrangeiro em nossa comunidade como nós gostaríamos de ser tratados, e que devemos desafiar a intolerância.

Recordarei e farei recordar a outros em minha comunidade que ninguém deixa sua terra natal sem uma razão: alguns fogem da perseguição, violência e exploração; outros devido a desastres naturais; e outros motivados pelo amor desejam prover uma vida melhor para sua família.

Reconheço que todas as pessoas têm direito à dignidade e ao respeito devido a sua condição de ser humano. Todos em meu país, inclusive os estrangeiros, estão sujeitos às leis do país e ninguém deve ser submetido à hostilidade ou discriminação.

Reconheço que acolher ao estrangeiro às vezes requer coragem, mas as alegrias e esperanças de fazê-lo sobrepassam grandemente os riscos e desafios. Apoiarei aqueles que corajosamente acolherem o estrangeiro.

Oferecerei hospitalidade ao estrangeiro, pois isso traz bênçãos sobre a comunidade, sobre minha família, sobre o estrangeiro e sobre mim.

Respeitarei e honrarei o fato de que o estrangeiro possa ter uma fé diferente ou manter crenças diferentes das minhas ou de outros membros da comunidade.

Respeitarei o direito do estrangeiro de praticar sua fé com liberdade. Buscarei criar espaços onde ele possa prestar seu culto livremente.

Falarei de minha própria fé sem menosprezar ou ridicularizar a fé de outros.

Construirei pontes entre o estrangeiro e eu. Através de meu exemplo, animarei a outros a fazerem o mesmo.

Farei um esforço não só para acolher ao estrangeiro, mas também para ouvi-lo em profundidade, e para promover o entendimento e acolhimento na comunidade.

Manifestarei-me pela justiça social para o estrangeiro, assim como faço para os outros membros da minha comunidade.

Quando eu vir hostilidade para com o estrangeiro em minha comunidade, seja em palavras ou em atos, não ignorarei, mas me empenharei em estabelecer o diálogo e facilitar a paz.

Não me manterei calado quando vir outros, mesmo que sejam líderes da minha comunidade de fé, falar mal dos estrangeiros, julgando-os sem conhecê-los ou quando vir que estão sendo excluídos, maltratados ou oprimidos.

Encorajarei minha comunidade de fé a trabalhar com outras comunidades de fé e organizações religiosas para encontrar melhores maneiras de assistir ao estrangeiro.

Acolherei o estrangeiro.