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Do Brasil às mesas globais

Desde 2013, construindo respostas, redes e pontes em torno do deslocamento forçado.

Meu trabalho entre pessoas refugiadas foi se desenvolvendo em diferentes frentes: acolhimento direto, mobilização de igrejas e organizações, formação, advocacy e participação em redes nacionais e internacionais.

 

No início, eu chegava a muitas dessas conversas principalmente para ouvir.

 

Procurava compreender melhor os deslocamentos, conhecer quem já estava trabalhando, aprender com outras experiências e levar essas perguntas de volta ao Brasil.

 

Aos poucos, porém, algo começou a mudar.

 

Aquilo que estávamos aprendendo e construindo no Brasil também começou a ser solicitado nessas mesas.

 

Já não apenas para ouvir.

 

Para contribuir.

As redes globais por trás das siglas

World Evangelical Alliance — WEA

 

Fundada em 1846, a Aliança Evangélica Mundial reúne hoje alianças evangélicas nacionais e regionais em mais de 160 países, representando cerca de 650 milhões de cristãos. Sua importância não está apenas no tamanho, mas na capacidade de reunir, conectar e representar partes muito diferentes da igreja evangélica global — da igreja local a espaços internacionais como as Nações Unidas. Ela cria mesas onde lideranças de diferentes regiões podem compartilhar experiências, coordenar respostas e construir uma voz comum diante de questões como missão, liberdade religiosa, dignidade humana, perseguição e crises humanitárias.

 

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Refugee Highway Partnership — RHP

 

A RHP nasceu em 2001, depois de uma consulta global patrocinada pela WEA que reuniu cristãos envolvidos com pessoas refugiadas. Tornou-se uma rede internacional de igrejas, organizações e pessoas que trabalham com populações em deslocamento forçado. Sua tarefa é conectar e equipar a igreja, estimular colaboração, promover cuidado integral e advocacy e ajudar comunidades cristãs a responder de maneira mais competente às realidades de refugiados e outros deslocados. Em vez de cada organização enfrentar isoladamente uma crise que atravessa países e continentes, a RHP cria uma infraestrutura relacional para aprender, conectar recursos e responder juntos.

 

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Religious Liberty Partnership — RLP

 

A RLP reúne organizações cristãs de diferentes partes do mundo comprometidas com a liberdade religiosa. Suas raízes estão numa conversa iniciada em 2004, no contexto do Movimento de Lausanne, quando organizações que trabalhavam com perseguição religiosa reconheceram que poderiam ser muito mais eficazes se colaborassem; a parceria foi formalmente lançada em 2006, com participação de lideranças da Open Doors (Portas Abertas), Christian Solidarity Worldwide e WEA. Hoje trabalha por meio de advocacy, pesquisa, assistência e cooperação internacional, buscando liberdade de religião para todos e respostas mais coordenadas para pessoas e comunidades pressionadas por causa de sua fé.

 

Foi dentro desse ecossistema de cooperação — onde a experiência local encontra perguntas globais — que minha participação começou a ganhar forma.

Quando o Brasil entrou na conversa

Desde 2013, o deslocamento forçado já havia entrado no centro do meu caminho no Brasil. A partir de 2015, essa experiência começou a me levar também a conversas internacionais.

​

 

2015 - 2016

 

 

Em 2015, participei no Chipre de uma consulta da Middle East Concern e, em seguida, de um encontro em Beirute.

 

Eu ainda estava sobretudo ouvindo, aprendendo e tentando compreender melhor uma crise que já atravessava fronteiras muito maiores do que as nossas.

 

Em 2016, essa posição começou a mudar.Fui convidado pela Missio Nexus para apresentar:

 

The Refugee Crisis — A Brazilian Response.

 

Pela primeira vez, entre os registros que conseguimos recuperar, a resposta brasileira aparecia explicitamente como o centro de uma apresentação internacional.

 

Poucos meses depois, participei também da RHP North America, no Canadá, novamente levando a experiência brasileira para a conversa.

 

O Brasil começava a entrar na conversa.

THE REFUGEE CRISIS

 

A BRAZILIAN RESPONSE

JOSÉ PRADO

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Refugee Highway Partnership — RHP Brazil, National Facilitator

Missio Nexus · 14 abr. 2016

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The Refugee Crisis — A Brazilian Response.

Da representação brasileira à responsabilidade internacional

2017

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​

Em 2017, a participação deixou de significar apenas apresentar aquilo que fazíamos no Brasil.

 

Novas responsabilidades começaram a surgir.

 

Em Londrina, durante uma consulta sobre diáspora, apresentei Diáspora — nossos novos vizinhos e conduzi uma conversa sobre a criação de uma aliança.

 

Naquele período, minha identificação na Refugee Highway Partnership já incluía responsabilidade pelo Brasil e América Latina.

 

Pouco depois, fui convidado para um pequeno encontro estratégico em Whidbey Island, nos Estados Unidos.

 

É ali que a mudança de função fica especialmente visível.

Whidbey 2017

Whidbey Island · agosto de 2017

 

Oito participantes reunidos para discutir direção, estrutura e futuro da Refugee Highway Partnership.

whidbey-2017-leitura.png

Atenas + Londres

Nos meses seguintes, a participação ganhou outras formas.

 

Em Atenas, participei de um encontro da Diaspora Peoples Europe, apresentando a experiência brasileira.

 

Em Londres, numa conferência internacional sobre a igreja perseguida, fui convidado a apresentar as respostas da igreja brasileira ao apelo dos nossos irmãos.

 

Aquilo que começara como escuta estava se tornando também responsabilidade de representar, traduzir contextos e conectar experiências.

José e representantes de organizações na reunião em Londres

Entre uma reunião e outra

Nem todo aprendizado aconteceu em conferências.

 

Na Alemanha, visitei pessoas refugiadas e pude observar de perto experiências de acolhimento e integração.

 

Na França, estendi a viagem para visitar uma amiga que também caminhava conosco havia anos.

 

Aline havia sido minha aluna no SETEP, em João Pessoa.

 

Ali, entre encontros com migrantes, pastores locais e conversas sobre os programas franceses, continuei aprendendo aquilo que os encontros formais nunca conseguiam ensinar sozinhos.

 

Algumas das perguntas mais importantes surgiam justamente entre uma reunião e outra.

A América Latina passa a ter voz

2018

 

 

Em 2018, a conversa começou a se ampliar.

 

No Brasil, acompanhei de perto a realidade do deslocamento venezuelano em Boa Vista e Pacaraima.

 

Ao mesmo tempo, as responsabilidades na Refugee Highway Partnership já me levavam a pensar não apenas o contexto brasileiro, mas também os movimentos de deslocamento na América Latina.

 

Em Bangkok, participei do RHP Global Leadership Summit.

 

Na Costa Rica, durante o encontro Dispersos — Diáspora y Misión, da COMIBAM, eu já tinha uma apresentação programada sobre o trabalho que vinha sendo desenvolvido.

 

Durante o próprio encontro, porém, fui convidado a preparar uma segunda exposição.

 

Desta vez, a pergunta era mais ampla:

 

o que estava acontecendo com o deslocamento forçado na América Latina?

 

Aquilo que começara como uma conversa sobre o Brasil passava a exigir uma leitura regional.

 

Brasil → região.

Sam George e José Prado

Na mesma ocasião, recebi uma cópia de Refugee Diaspora, obra organizada por Sam George e Miriam Adeney, para a qual eu havia contribuído com um capítulo.

Bangkok · junho de 2018

Ao final daqueles dias de trabalho no RHP Global Leadership Summit, fui convidado a conduzir a Santa Ceia com o grupo.

 

Guardo aquele convite como uma honra e uma expressão da confiança construída no caminho.

Quando participar passou a significar construir a própria rede

2019

 

 

Até ali, eu havia participado de encontros, apresentado experiências, articulado iniciativas e assumido responsabilidades regionais.

 

Em 2019, alguma coisa mudou novamente.

 

Em março, um pequeno grupo representativo da Refugee Highway Partnership reuniu-se em Bangkok para revisar propósito, valores, estrutura e processos da rede.

 

No documento daquele encontro, apareço identificado como:

 

Latin America — Jose Prado

 

Ao final, foi formada uma Continuation Team para dar sequência ao processo e preparar os próximos passos.

 

Passei a integrar essa equipe.

 

Outros encontros aconteceriam ao longo daquele ano.

 

Em setembro, em Amã, no Oriente Médio.

 

Em novembro, novamente em Bangkok, quando uma reunião ampliada deu continuidade ao processo de reorganização global.

 

Já não se tratava apenas de participar de uma rede existente.

 

Agora eu também participava da construção da própria mesa.

Daegu · Coreia do Sul

 

 

Naquele mesmo ciclo de viagens, estive também em Daegu, na Coreia do Sul, a convite de uma congregação internacional ligada a uma grande igreja presbiteriana.

 

Ali, a contribuição assumiu outra forma: pregação, conversa e encontro com uma comunidade internacional.

 

Nem toda participação precisava produzir uma nova estrutura.

 

Algumas simplesmente mantinham abertas as pontes.

Quando as fronteiras fecharam

2020

 

Então veio a pandemia.

 

As viagens foram interrompidas.

 

Os encontros presenciais desapareceram quase de um dia para o outro.

 

Mas as redes continuaram funcionando.Participei do Lausanne Diaspora Virtual Summit, facilitando pequenos grupos, e seguimos mantendo conversas da RHP em níveis global e latino-americano.

 

A geografia havia mudado.A responsabilidade, não.

 

A pandemia interrompeu viagens.

 

Não interrompeu as redes.

Quando a rede precisou responder

2021 · Afeganistão

 

 

Em agosto de 2021, a tomada de Cabul transformou uma rede de relacionamentos e conversas em uma necessidade concreta de resposta.

 

No Brasil, organizações e pessoas começaram a se aproximar.

 

Dessa articulação tomou forma a Coalizão Brasil Afeganistão.

 

Passei a atuar como seu Coordenador Geral.

 

A Coalizão reuniu organizações em torno de diferentes frentes:

 

documentação, acolhimento, cuidado psicossocial, segurança, advocacy, relações com igrejas e preparação de estruturas de recepção.

 

Ao mesmo tempo, a crise afegã também estava sendo discutida na liderança global da Refugee Highway Partnership.

 

Em setembro, registros da rede já mencionavam a articulação brasileira e propunham a formação de uma Afghanistan Task Force.

 

Poucos dias depois, a liderança global aprovou sua criação.

 

A mesma crise estava sendo enfrentada em escalas diferentes.

 

No Brasil, capacidade de acolhimento.

 

Na rede global, conexão e coordenação.

 

A mesma crise. Duas escalas de articulação.

coalizao-2021-leitura.png
Quando duas conversas precisaram se encontrar

2022

 

 

Ao longo dos anos, duas conversas haviam caminhado muitas vezes lado a lado.

 

Uma dizia respeito ao deslocamento forçado.

 

A outra, à liberdade religiosa.

 

Em 2022, elas passaram a se encontrar de maneira mais intencional.

 

Durante a consulta da Religious Liberty Partnership, em Varsóvia, começou a ganhar forma uma articulação conjunta entre a RLP e a Refugee Highway Partnership.

 

Nasceu o RLP/RHP Refugees and Religious Liberty Task Group.

 

A proposta era conectar questões que frequentemente apareciam separadas:

 

perseguição religiosa, deslocamento forçado, reassentamento, advocacy, acolhimento por igrejas e proteção de minorias.

 

Passei a integrar a equipe de facilitação ao lado de Asif Mall, Gordon Showell-Rogers e Jude Simion.

varsovia-2022-leitura.png
Amã e Zaatari · Jordânia

 

 

Em setembro daquele ano, participei novamente de uma reunião presencial da liderança global da RHP em Amã.

 

Durante aqueles dias, visitei o campo de refugiados de Zaatari.

 

Depois de tantos documentos, reuniões e estratégias, o terreno voltava a interromper qualquer abstração.

Zaatari · Jordânia · setembro de 2022

 

Durante a reunião presencial da liderança global da RHP em Amã, uma visita ao campo de refugiados de Zaatari.

Uma presença que muda de forma

2024–2025

 

 

Com o passar dos anos, minha presença nessas redes também foi mudando de forma.

 

Nem toda participação precisava significar direção de uma estrutura ou criação de uma nova iniciativa.

 

Em 2024, em Toronto, fui convidado para a plenária:

 

Brazil — Religious Liberty Update

 

A proposta era apresentar uma breve leitura da situação da liberdade religiosa no Brasil: desafios, ameaças, tendências e respostas da igreja.

 

Oito anos antes, em 2016, eu havia apresentado:

 

The Refugee Crisis — A Brazilian Response

 

Agora, novamente, a experiência brasileira era solicitada numa conversa internacional — desta vez em outro campo temático.

toronto-2024-leitura.png

2016

 

The Refugee Crisis — A Brazilian Response

 

 

2024

 

Brazil — Religious Liberty Update

 

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​

 

Em 2025, em Nairóbi, continuei participando dessas conversas.

 

A presença internacional permanecia.

 

Mas já não precisava ter sempre a mesma forma.

O que essas mesas produziram?

 

 

Depois de tantos encontros, é legítimo perguntar:

 

o que ficou além das viagens?

 

Não quero medir essas redes pelo número de países visitados, reuniões realizadas ou cartões de visita acumulados.

 

O que importa é aquilo que elas ajudaram a tornar possível.

 

Ao longo desse caminho, diferentes articulações produziram ou fortaleceram iniciativas como:

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Abrace Venezuela

 

RHP Brasil

 

RHP América Latina

 

Coalizão Brasil Afeganistão

 

Afghanistan Task Force

 

Refugees and Religious Liberty Task Group

 

 

além de conexões que contribuíram para processos de acolhimento, reassentamento, formação, advocacy e mobilização de igrejas e organizações.

 

Rede, afinal, não é uma lista de contatos.

 

 

REDE = CAPACIDADE COMPARTILHADA DE RESPOSTA

Uma trajetória internacional visível

2015

Chipre · Beirute

ouvir · aprender

 

2016

Missio Nexus · RHP North America

apresentar o Brasil

 

2017

Brasília · Chiang Mai · Londrina · Whidbey Island · Atenas · Londres

assumir responsabilidade · articular · contribuir

 

2017 — campo e relações

Turquia · Alemanha · França

encontrar · observar · aprender localmente

 

2018

Boa Vista / Pacaraima · Bangkok · Costa Rica

observar · liderar · ampliar a conversa regional

 

2019

Bangkok · Amã · Bangkok · Daegu

construir · reorganizar · conectar

 

2020

Lausanne Diaspora · RHP Global / América Latina

facilitar · sustentar conexões

 

2021

Coalizão Brasil Afeganistão · Afghanistan Task Force · Brasília

coordenar · articular · responder

 

2022

Varsóvia · Amã · Zaatari

integrar agendas · facilitar · liderar

 

2024

Toronto

contribuir como voz brasileira

 

2025

Nairóbi

permanecer conectado

O que aprendi a fazer

 

 

LER

 

Aprender a olhar uma crise não apenas pelos números, mas também pelo que ela produz na vida das pessoas, das famílias e das comunidades.

 

​

CONSTRUIR

 

Aproximar pessoas e organizações que, sozinhas, dificilmente conseguiriam responder à complexidade de um deslocamento forçado.

 

​

TRADUZIR

 

Ajudar mundos diferentes a se compreenderem:

campo e estratégia,

igrejas e organizações,

Brasil e redes internacionais,

necessidades locais e conversas globais.

 

​

MOBILIZAR

 

Transformar preocupação em participação.

Ajudar pessoas, igrejas e organizações a encontrar um lugar concreto dentro de uma resposta.

 

​

FORMAR

 

Compartilhar aquilo que fomos aprendendo.

 

Preparar pessoas para acolher, compreender contextos culturais, trabalhar em rede e responder com responsabilidade.

 

​

ADVOCAR

 

Levar necessidades e vozes até espaços onde decisões são tomadas.

 

Sem permitir que políticas, estruturas e estratégias façam desaparecer os rostos que lhes deram origem.

 

Talvez essa seja a bagagem mais importante que essas mesas deixaram.

Agora, Curitiba

 

 

Depois de mais de uma década atravessando cidades, países, casas, campos de refugiados e mesas internacionais, Val e eu chegamos a uma nova estação.

 

Curitiba.

 

Na Avenida Marechal Floriano Peixoto, uma casa começa a procurar sua vocação na cidade.

 

Não começo esta etapa do zero.

 

Chego com pessoas que encontrei.

 

Perguntas que ainda carrego.

 

Redes construídas ao longo dos anos.

 

Aprendizados.

 

Erros.

 

Amizades.

 

Histórias que continuam me acompanhando.

 

E uma pergunta que ainda está aberta:

 

como tudo isso pode servir a cidade onde agora estamos?

 

Não tenho todas as respostas.

 

Talvez possamos começar por uma conversa.

 

Quero descobrir como essa bagagem pode servir Curitiba.

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