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O caminho que nos trouxe até aqui

Quando, em 2006, escolhemos o nome Teleiós para ser nossa casa digital, fomos atraídos por uma palavra grega associada à ideia de completude, maturidade, algo que alcançou seu propósito. Havia nela uma beleza que desejávamos afirmar: a vida humana e toda a criação possuem origem, dignidade e destino em Deus.

Com o passar dos anos, porém, a palavra começou a revelar também uma tensão.

A vida que vivemos não se parece com uma obra pronta. Ela é feita de fragilidade e inacabamento, de encontros e desencontros, de decisões que só compreendemos muito depois. Há trechos em que caminhamos com clareza. Em outros, apenas conseguimos enxergar o próximo passo. Algumas vezes avançar significa partir; em outras, permanecer. E há momentos em que precisamos voltar para reencontrar o caminho.

Talvez Teleiós não seja o nome de quem chegou. Talvez seja uma palavra sobre aquilo em que nos transformamos enquanto caminhamos.

Entrar na estrada sem possuir o mapa

Começamos juntos ainda muito jovens. Crescemos na mesma pequena igreja da Vila Romana, na zona oeste de São Paulo. Ali aprendemos a fé, a música, o cuidado comunitário e também a conviver com as limitações próprias de toda comunidade humana.

Em 1985, poucos dias depois do nosso casamento, entramos num ônibus para uma viagem de trinta dias pelo Nordeste com o MILAD. Não tínhamos recursos suficientes para completar o roteiro. Muitas vezes havia dinheiro apenas para o primeiro trecho, e a continuidade dependia das ofertas recebidas em cada cidade. Descarregávamos os equipamentos, montávamos o palco, tocávamos, desmontávamos e voltávamos para a estrada.

Não sabíamos, naquele momento, que aquela experiência nos apresentava uma das gramáticas que atravessaria toda a nossa vida: caminhar com o que se tem nas mãos, depender de outras pessoas e discernir o caminho enquanto ele é percorrido.

Foi também dentro daquele ônibus que começamos a encontrar o Brasil. Não o Brasil abstrato dos livros ou dos discursos, mas o país de caminhoneiros, pescadores, prostitutas, garimpeiros, catadores de lixo, pastores, músicos e famílias que nos recebiam. Viajávamos para cantar, mas éramos continuamente ensinados por quem encontrávamos.

Ao longo dos anos, cidades, países e instituições mudariam. Essa disposição de sair do lugar protegido para encontrar as pessoas onde a vida acontece permaneceria.

Os encontros que passam a caminhar conosco

Antes do MILAD, uma flauta já havia aberto uma porta. Meu pai, com grande sacrifício, conseguiu comprar a flauta transversal que eu desejava desde menino. Eu tinha dezessete anos — uma idade tardia para quem sonhava aprender seriamente um instrumento — e não conseguia extrair dela um único som.

Não havia internet. Começamos a perguntar aos vizinhos onde encontrar um professor. Foi assim que descobrimos que João Dias Carrasqueira morava a cerca de cem metros de nossa casa.

Atravessei a pequena distância a pé, toquei a campainha e entrei num universo que estava muito além do que eu poderia imaginar. Carrasqueira não era apenas um professor disponível no bairro. Era um dos grandes flautistas brasileiros, contemporâneo de músicos extraordinários e alguém cuja didática e musicalidade me marcariam profundamente.

Anos depois, seu filho Toninho — que eu conhecera como concertista, alguém que parecia pertencer a um mundo muito distante do meu — estaria sentado ao meu lado na Jazz Sinfônica do Estado de São Paulo e se tornaria um dos meus melhores amigos daquela estação.

Essa história se repetiu de diferentes maneiras. Pessoas que pareciam pertencer apenas a uma etapa reapareceram muito adiante. Companheiros de música se tornaram colegas de orquestra e de igreja. Um amigo de uma viagem a Timor-Leste reapareceu quinze anos depois, abrindo espaço para famílias refugiadas em São Paulo. Relações formadas na juventude voltaram a se cruzar conosco quatro décadas mais tarde, na Grande Curitiba.

Aprendemos que não atravessamos pessoas para chegar à vocação. Os encontros são parte da própria vocação. Algumas pessoas caminham conosco durante muitos anos. Outras permanecem por pouco tempo, mas deixam algo que continua fecundando a estrada.

As roupas que vestimos

Durante essa caminhada, assumimos muitos papéis. Fui músico, pastor, professor, diretor de uma agência missionária, pesquisador, articulador de redes, acolhedor e aprendiz do cuidado da terra. Val foi companheira de viagens, mãe, anfitriã, organizadora da vida comum, cuidadora, conselheira e presença essencial nos lugares onde a vocação precisou ganhar corpo.

Chamamos esses papéis de roupas.

Uma roupa permite atravessar determinado clima e exercer uma função. Pode proteger, identificar e abrir portas. Também pode tornar-se apertada, pesada ou inadequada para a estação seguinte.

Mas nem sempre precisamos retirar inteiramente uma roupa para vestir outra. O músico não desapareceu quando me tornei pastor. A música permaneceu na escuta, na convivência entre vozes distintas e na tentativa de construir harmonia sem apagar as diferenças. O pastor continuou presente quando deixei a equipe de uma igreja para acompanhar refugiados. O professor atravessou salas de aula, igrejas, casas e conversas com vocacionados. O executivo aprendeu a organizar estruturas, mas precisou descobrir que uma instituição nunca poderia conter toda a vocação.

O perigo está em confundir a roupa com a pessoa ou com o caminho. Títulos terminam. Organizações mudam. Funções deixam de existir. A vocação, porém, pode reaparecer com outra forma.

Pedras, muros e caminhos interrompidos

Nossa história não foi feita somente de portas abertas. Houve conflitos, desligamentos, escassez financeira, projetos impedidos, mudanças não planejadas e períodos em que perdemos a capacidade de perceber direção.

Alguns obstáculos se pareceram com pedras: limites do corpo, do território, dos recursos e das circunstâncias. Outros foram muros construídos por pessoas, culturas e instituições: preconceito, racismo, medo religioso, decisões concentradas e relações que não conseguiram sustentar a diferença.

Nem toda pedra deve ser removida. Algumas precisam ser contornadas. Nem todo muro cairá quando o confrontarmos. Às vezes será necessário procurar outra passagem.

Também aprendemos a não explicar cedo demais o sofrimento. Uma porta fechada pode, anos depois, parecer parte de uma direção. Mas isso não apaga a perda que ela produziu quando se fechou. Há feridas que não devem ser transformadas rapidamente em lições. Existem perguntas que continuam abertas.

Em 1994, depois de deixar a Jazz Sinfônica para servir integralmente numa igreja, um desentendimento nos levou a ter que partir para a Costa Rica. Anos depois, um encontro inesperado numa calçada permitiu uma conversa dura e um pedido de perdão. A reconciliação não apagou o trauma, mas impediu que o desencontro se tornasse a palavra final sobre aquela relação.

Há separações que encerram um vínculo. Outras mudam sua forma. Só o tempo, a verdade e a disposição de voltar a conversar podem revelar a diferença.

Voltar também faz parte

Voltamos da Costa Rica antes do planejado por causa de uma gravidez que exigia repouso e cuidado. Voltamos a São Paulo depois de anos no Nordeste porque nossos filhos cresciam longe da família e porque uma iniciativa pastoral havia terminado em profunda frustração. Outras vezes regressamos a pessoas, perguntas e lugares que imaginávamos pertencer apenas ao passado.

Durante muito tempo, retornar pode parecer o contrário de avançar. Hoje sabemos que alguns retornos nos salvaram de insistir numa direção que já não comportava a vida.

Retornar não significa voltar a ser quem éramos. Trazemos conosco as roupas, cicatrizes, relações e descobertas acumuladas. O mesmo lugar já não é o mesmo, porque o caminhante também mudou.

Em 1995, ao descer de um avião em Cumbica, ouvi uma frase que me acompanharia: “Eu tenho um ministério para você no Brasil.” Naquele momento, voltar ao país parecia uma interrupção sem sentido dos nossos planos. Pouco depois, um telefonema recebido enquanto atravessávamos a balsa Santos–Guarujá abriu uma nova estação na direção da MIAF.

Anos mais tarde, quando um projeto de mudança para a África do Sul foi impedido no último passo, a pergunta que emergiu não foi sobre uma direção nova, mas sobre a última direção recebida. Às vezes discernir não é procurar outra voz. É recordar aquilo que ainda não terminou de produzir caminho.

Ajudar outros a retomar o movimento

Em 2013, o rosto da missão reapareceu para nós nas famílias sírias que chegavam ao Brasil. Fomos várias vezes ao aeroporto de Guarulhos, não para viajar, mas para esperar quem desembarcava sem conhecer o país. Salas de igreja se tornaram dormitórios. Nossa casa recebeu famílias. Amigos, igrejas, intérpretes e organizações formaram uma rede antes que tivéssemos linguagem ou estrutura para explicar o que estava nascendo.

 

Com o tempo, aprendemos que acolher não é apenas abrir uma porta. É ajudar alguém a recuperar movimentos: aprender a língua, circular pela cidade, trabalhar, estudar, cultivar amizades e voltar a tomar decisões sobre a própria vida.

Também descobrimos que os papéis não são permanentes. Quem chega não é apenas destinatário do cuidado. Pode tornar-se intérprete, conselheiro, anfitrião, professor e guia para quem virá depois. O caminhante que imaginava abrir caminho para o outro descobre que o outro também possui mapas.

Essa experiência ganhou casas, redes, projetos e territórios. Em Marília, aprendemos que uma casa também pode ser construída com pontes: universidade, serviços públicos, empresas, igrejas, voluntários e relações que tornam a cidade mais atravessável. Na Grande Curitiba, diferentes lugares começam a sustentar diferentes trechos da jornada: chegada e proteção, inserção na cidade, trabalho, formação, cultivo e cuidado da terra.

Nenhum lugar precisa fazer tudo. Nenhuma pessoa consegue caminhar por todas as outras.

A estação presente

Hoje, José e Val que olham para essa estrada não são os mesmos jovens que entraram no ônibus do MILAD. Ainda reconhecemos neles o músico e a jovem companheira que começavam a vida juntos. Mas carregamos também os professores, pastores, pais, avós, anfitriões, articuladores, amigos e aprendizes em que fomos nos tornando.

Chegamos à Grande Curitiba cercados por relações antigas que voltaram a aparecer e por pessoas novas que ainda estamos começando a conhecer. A nova Casa do Abuna e o Abuna Ambiental não representam a conclusão de uma história. São a estação atual de uma vocação que continua procurando formas de acolher, aproximar, formar e cuidar.

Teleiós nasce, ou talvez renasça, como o lugar onde podemos olhar essa caminhada com mais atenção. Não para provar que todas as coisas fizeram sentido, nem para oferecer um mapa universal. Queremos recordar cenas, reconhecer pessoas, nomear perdas, agradecer encontros e preservar perguntas.

Talvez essas histórias ajudem alguém a olhar para a própria estrada com um pouco mais de paciência.

Porque não precisamos ter chegado para que nossa caminhada já contenha sentido.

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