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O que o exílio não levou

Rostos, histórias e aquilo que as pessoas carregaram consigo através das fronteiras.

Ao longo dos anos encontrei pessoas que haviam perdido casa, território, segurança, trabalho, comunidade e, algumas vezes, quase tudo aquilo que organizava sua vida.

 

Mas nunca encontrei alguém que tivesse chegado sem nada.

 

Algumas trouxeram canções.

 

Outras, receitas e maneiras de preparar uma mesa.

 

Outras, dança.

 

Outras, fé.

 

Outras, uma vocação que o exílio não conseguiu apagar.

 

O exílio havia levado muito.

 

Não tudo.

Rostos antes dos números

Vale do Bekaa · Líbano · 2015

No Vale do Bekaa visitei um assentamento de refugiados sírios conhecido como Campo das Viúvas.

Havia lona, terra, estruturas improvisadas e vidas profundamente alteradas pela guerra.

E havia crianças correndo.

Tenho um pequeno vídeo daquele dia.

Elas riem, brincam e fazem graça diante da câmera.

Não quero transformar aquela cena numa história de “felicidade apesar de tudo”.

Naquele instante, elas eram simplesmente crianças.

Quem acolhia quem?

Turquia · 2017

Num piquenique com famílias cristãs iraquianas refugiadas, uma senhora idosa me viu de longe.

 

Era viúva. Iraquiana. Cristã.

​

Ela me chamou:

 

Abuna.

 

Depois me convidou para sentar ao seu lado e repartiu comigo sua comida.

 

Eu havia ido encontrar refugiados.

 

Mas era ela quem estava me recebendo.

 

Quem acolhia quem?

Uma canção antiga

Mais tarde, um homem se aproximou e começou a cantar.

 

Pedi que repetisse para que eu pudesse gravar.

 

Só depois, já no Brasil, descobri que ele havia cantado em aramaico uma antiga canção sobre a misericórdia de Deus.

 

Algumas coisas atravessam fronteiras sem precisar de tradução.

O pastor ainda era pastor

Entre aquelas famílias havia também um pastor refugiado.

 

Ele próprio vivia o deslocamento forçado.

 

Mas continuava cuidando daquela comunidade.

 

O exílio havia mudado seu endereço.

 

Não havia apagado sua vocação.

Cultura em movimento

Naquele encontro havia também dança.

 

Música.

 

Comida.

 

Gestos que não precisavam ser ensinados novamente quando alguém cruzava uma fronteira.

 

O deslocamento mudava o lugar onde aquelas pessoas viviam.

 

Não apagava necessariamente a maneira como celebravam, recebiam ou permaneciam juntas.

Uma canção no banco de trás

Alemanha · outubro de 2017

Tágory dirigia.

 

Eu estava no banco da frente.

 

Atrás viajavam dois homens que havíamos encontrado naquele período de visitas a refugiados.

 

Um era yazidi.

 

O outro, um jovem afegão hazara.

 

Então o homem yazidi começou a cantar.

 

Não havia culto, palco ou programa.

 

Apenas quatro homens dentro de um carro em movimento.

 

Às vezes, a memória de um povo viaja no banco de trás.

Hoje essa fotografia me diz mais do que eu conseguia perceber naquele momento.

 

Eu ainda não podia imaginar que, poucos anos depois, homens, mulheres e crianças hazaras passariam a ocupar um lugar tão importante na história do Abuna.

 

Antes que chegassem em grande número às nossas casas no Brasil, um jovem hazara já havia cruzado meu caminho ali.

Grades e flores

Bangkok · junho de 2018

22 de junho

 

Fui ao "Immigration Detention Center" visitar cristãos paquistaneses que fugiram da perseguição em seu país mas acabaram presos no país que buscavam refúgio. Levei frutas, bolachas e doces.

 

O que vi, porém, me perturbou.

 

Vi crianças paquistanesas atrás das grades, em celas com dezenas de adultos. 

Naquele dia escrevi:

“Não sei o que posso fazer. Só preciso deixar registrado que eu vi.”

23 de junho

 

No dia seguinte, encontrei outra cena.

Uma pequena sala.

 

Crianças no chão.  

 

Cadeiras de plástico.

Uma toalha florida.  Um vaso de flores.

E gente cantando.

Alguém havia colocado flores sobre a mesa.

Ninguém chega de mãos vazias

Aos poucos percebi que nossa própria linguagem sobre acolhimento era insuficiente.

Dizíamos que acolhíamos pessoas refugiadas.

Era verdade.

Mas a frase podia sugerir que alguém que possui alguma coisa recebe alguém que não possui nada.

Não era isso que eu encontrava.

A viúva tinha comida para repartir.

Um homem tinha um hino.

Os jovens tinham sua dança.

O pastor tinha sua vocação.

O yazidi tinha uma canção.

Os paquistaneses tinham sua fé.

As crianças ainda tinham seu riso.

Eles haviam perdido muito.

Mas não chegavam vazios.

O que chegou com eles

Com o tempo, o movimento se inverteu.

 

Já não éramos apenas nós atravessando fronteiras para encontrá-los.

 

Eles começaram a chegar às nossas casas.
 

E não trouxeram apenas malas.

Paquistão · Casa Azul

Um jovem paquistanês canta um hino à capela.

​

A voz permanece.

Afeganistão · Casa Rosada
Jantar oferecido pelo Chef afegão Barat

29 de  junho 2023 · Casa Rosada, Maringá

Um chef afegão ofereceu um jantar na Casa Rosada.

 

A mesa estava preparada.

 

Nós éramos os convidados.

 

A casa que existia para receber pessoas refugiadas tornava-se também o lugar onde alguém que havia sido recebido podia receber.

Síria e Egito · Campina Grande do Sul

Em 1º de novembro de 2025, sírios acolhidos e egípcios que caminhavam conosco prepararam um almoço árabe.

Pães feitos à mão.

 

Quibes. Saladas.

Receitas que haviam atravessado fronteiras com eles.

Na parede, a bandeira síria.

Sobre a mesa, memória transformada em hospitalidade.

Mais uma vez, quem havia chegado para ser acolhido também nos acolhia.

Tornava-se mesa compartilhada.

Já não era possível pensar hospitalidade como um gesto de mão única.

O músico que passou a escutar

Durante uma parte importante da minha vida, fui eu quem carregou música pelos caminhos.

Flauta.

Clarinete.

Saxofone.

Depois comecei a caminhar com pessoas refugiadas.

E alguma coisa se inverteu.



Elas começaram a cantar para mim.



Um homem iraquiano, em aramaico.

Um yazidi, num carro na Alemanha.

Uma comunidade paquistanesa, em Bangkok.

Um jovem paquistanês, na Casa Azul.

O músico continuava presente.

Mas agora estava escutando.

 

E talvez essa tenha sido uma das coisas que a hospitalidade precisou me ensinar:

 

Acolher não é apenas abrir espaço para o outro.
 

É também aprender a receber aquilo que ele traz.

O que atravessa uma fronteira

Ao atravessar uma fronteira, uma pessoa pode perder documentos.

 

Pode perder a casa.

 

A profissão.

 

A vizinhança.

 

Às vezes, pessoas que ama.

​

 

Mas nenhum posto migratório consegue registrar tudo aquilo que ela carrega consigo.

 

Memória.

 

Língua.

 

Fé.

 

Receitas.

 

Música.

 

Ofício.

 

Afetos.

 

Vocação.

 

Maneiras de fazer uma casa.

​

 

Ninguém chega apenas com aquilo que perdeu.

O que chegou até nós?

Hoje já não consigo imaginar hospitalidade como um gesto de mão única.

 

Quem chega traz alguma coisa consigo.

 

Talvez acolher comece quando deixamos de perguntar apenas:

 

“O que essa pessoa precisa de nós?”

 

e aprendemos também a perguntar:

 

“O que chegou até nós com ela?”

Da escuta à conversa

Essas pessoas também me acompanharam até outras salas.

 

Eu procurava chegar às conversas internacionais trazendo comigo aquilo que havia ouvido nas casas, campos, carros, igrejas e mesas onde tinha acabado de me sentar.

 

Porque estratégia sem rostos pode perder justamente aquilo que deveria proteger.

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