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José e Val

Uma caminhada compartilhada

 

Nós nos conhecemos ainda crianças. Crescemos na mesma pequena igreja da Vila Romana, na zona oeste de São Paulo, num bairro marcado pela presença italiana, pelas ruas de nomes romanos e pela paixão palmeirense. Ali fomos batizados, fizemos profissão de fé e começamos a servir entre jovens e na música.

No fim da adolescência, nossos olhares se cruzaram de outra maneira. A amizade ganhou uma nova forma, e passamos a imaginar uma vida compartilhada.

Quando o pai de José, com grande sacrifício, conseguiu comprar a flauta transversal que ele desejava desde menino, Val já estava por perto. Depois das aulas na casa de João Dias Carrasqueira, muitas vezes José ia encontrá-la. Ela acompanhou o nascimento do Grupo Pescador, a gravação do álbum Contraste e os primeiros passos do MILAD.

Em janeiro de 1985, o pai de José faleceu. Naquele mesmo período aconteceria, no Rio de Janeiro, a primeira apresentação pública do MILAD. José não foi. Val permaneceu ao seu lado.

Nós nos casamos em dezembro daquele ano. Cerca de dez dias depois da lua de mel, entramos juntos no ônibus do MILAD para uma viagem de trinta dias pelo Nordeste.

Aquela imagem diz muito sobre a vida que estávamos começando: casamento, luto, música, estrada, beleza, comunidade, precariedade e vocação já apareciam entrelaçados.

A estrada e a vida comum

 

Ao longo de mais de quarenta anos, vivemos em São Paulo, Costa Rica, Estados Unidos, Londrina, João Pessoa, Maringá, Marília e, agora, na Grande Curitiba. Outras cidades e países também se tornaram lugares de encontro.

 

Nossa família cresceu durante esse percurso. Gabriel nasceu em 1994. Mariana, em 1996. Depois chegou Larissa. Mais tarde vieram Stefani, Matheus, nossa primeira neta, Eliza, e agora, em julho de 2026, Luiza. Cada mudança de cidade e de direção ministerial foi também uma decisão familiar, com custos e possibilidades diferentes para cada um.

Por isso, não contamos nossa trajetória como se vocação fosse uma atividade exercida por José enquanto Val e os filhos apenas o acompanhavam. A vocação precisou tornar-se vida comum: casa, alimentação, escola, despedidas, quartos compartilhados, hospitalidade, contas, cansaço e recomeços.

Muitas vezes, Val tornou habitável aquilo que José enxergava como direção. Enquanto ele viajava, ensinava, articulava relações ou respondia a uma emergência, ela sustentava a continuidade da casa e da família. Em outros momentos, foi diretamente com ele: nas viagens do MILAD, na mudança para a Costa Rica, na pesquisa para uma base na África do Sul, no acolhimento de refugiados e nas sucessivas mudanças pelo Brasil.

Isso não significa que sempre percebemos ou interpretamos os acontecimentos da mesma maneira. Uma caminhada compartilhada não apaga as diferenças. Parte do que ainda desejamos fazer no Teleiós é permitir que Val também recupere suas próprias memórias, perguntas e leituras.

As roupas que vestimos

 

José começou a estrada vestido de músico. Tocou flauta e saxofone, participou do Grupo Pescador e do MILAD, trabalhou profissionalmente e integrou a formação inicial da Jazz Sinfônica do Estado de São Paulo.

 

Depois vieram outras roupas: pastor, professor, diretor de missão, pesquisador, mobilizador, articulador de redes, acolhedor de refugiados e aprendiz da agroecologia. Algumas foram usadas ao mesmo tempo. Outras pareciam ter sido guardadas, mas reapareceram anos depois com nova função.

 

Val também vestiu roupas diferentes. Foi vocalista do MILAD, mãe em meio a viagens e mudanças, anfitriã, organizadora, cuidadora e parceira nas decisões e nos trabalhos que foram nascendo. Hoje ela é vice-presidente do Abuna e coordenadora de toda a área de acolhimento, o que envolve várias casas e equipes. Mas esse título não contém sua participação. Antes de haver uma organização, ela já abria espaço na vida familiar para que pessoas pudessem chegar.

As roupas nos ajudaram a servir em cada estação, mas procuramos não confundi-las com quem somos. Instituições mudam, cargos terminam e projetos encontram limites. A vocação pode continuar por baixo deles, procurando outra forma de responder.

Da estrada para a Casa — e novamente para o caminho

 

Em 2013, o encontro com famílias sírias deslocadas pela guerra começou a transformar profundamente nossa vida. Salas de igreja viraram dormitórios. Nossa casa passou a receber pessoas que chegavam sem rede de apoio. Val ajudava a organizar comida, quartos, banheiros e tudo aquilo que permite que hospitalidade deixe de ser intenção e se torne cuidado cotidiano.

 

Quando os quartos dos nossos filhos já não conseguiam comportar o fluxo de hóspedes, alugamos outra casa próxima. Assim nasceu a primeira Casa de acolhimento — não como expansão planejada de uma instituição, mas como resposta ao limite concreto da nossa própria casa.

 

Essa experiência cresceu e recebeu o nome Abuna, palavra árabe afetiva para pai ou guia espiritual. Com o tempo, o Abuna ganhou estrutura, equipes, redes e novos territórios. Hoje conjuga acolhimento de pessoas deslocadas à força, formação, articulação e cuidado da terra.

 

Mas Teleiós e Abuna não são a mesma coisa.

 

O Abuna é uma das formas concretas que nossa vocação assumiu. Teleiós é o lugar onde podemos voltar à experiência, escutá-la com mais tempo e perguntar o que ela fez conosco. Aqui, a prioridade não são os projetos, mas a vocação; não apenas a Casa, mas o caminho que nos trouxe até ela e que continua para além dela.

Quem somos hoje

 

Hoje somos um casal que atravessou mais de quatro décadas de vida compartilhada. Somos pais e avós. Carregamos alegrias, cicatrizes, amizades antigas, relações novas e muitas perguntas ainda abertas.

 

José continua escrevendo, ensinando, pastoreando, articulando pessoas e aprendendo com quem encontra. Val continua fazendo da vocação um lugar habitável, participando das decisões, do cuidado e da vida concreta do Abuna. Juntos, seguimos aprendendo a receber e também a ser recebidos.

 

Chegamos à Grande Curitiba não como quem alcançou um destino final, mas como quem reconhece uma estação nova. Relações iniciadas na juventude reapareceram. Novas responsabilidades chegaram. A Casa do Abuna e o território do Abuna Ambiental começam a aproximar histórias, pessoas, cidade e terra.

O Teleiós é nosso caderno desse caminho. Nele queremos repartir histórias não porque nossa vida ofereça um modelo a ser copiado, mas porque talvez as perguntas, encontros, desencontros e retornos que nos transformaram possam fazer companhia a outras pessoas.

Ainda estamos caminhando.

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