Percurso
Uma vida pode ser contada por datas, lugares, funções e projetos.
Mas, olhando para trás, percebo outros fios.
Músicas que me ensinaram a escutar. Estradas que trouxeram pessoas para perto. Perguntas que exigiram estudo. Encontros que alteraram planos. Casas que precisaram ser abertas.
Recomeços que só muito tempo depois ganharam nome.
Nem sempre compreendi o caminho enquanto caminhava. Algumas coisas só se tornam visíveis quando voltamos a elas.
Este é um pouco desse percurso.
01 · MÚSICA · ESTRADA · CONJUNTO
Aprender a escutar
Antes de muitas das palavras que hoje uso, havia música.
Flauta, clarinete, saxofone. Ensaios. Palcos. Estúdios. Estradas.
Nos anos 1980, boa parte da minha vida aconteceu dentro de um ônibus, viajando pelo Brasil com outros músicos. Tocávamos, convivíamos, conversávamos e compúnhamos. Algumas canções nasciam no caminho. Muitas vezes, as pessoas que encontrávamos acabavam entrando nelas: garimpeiros, caminhoneiros, cidades pequenas, sotaques, histórias, fé, pobreza, esperança.
A estrada não servia apenas para levar a música. Às vezes, era a estrada que dizia o que precisava ser cantado.
Anos depois, outra escola de música me esperava. Ingressei por concurso na Jazz Sinfônica do Estado de São Paulo. Ali, entre partituras, ensaios e grandes músicos, aprendi também a responsabilidade de ocupar um lugar no conjunto.
Numa orquestra, nem toda voz está no centro. É preciso ouvir. Perceber quando entrar. Saber quando sustentar uma nota e quando silenciar. Executar bem a parte que lhe cabe sem perder de ouvido o que todos os outros estão fazendo.
Não sei até onde a música explica aquilo que me tornei. Essa é uma pergunta que ainda quero investigar.
Mas hoje consigo reconhecer que, muito antes de falar tanto sobre escuta, eu já estava aprendendo a escutar.

MILAD · 1985
02 · MISSÃO · FRONTEIRAS · ENCONTRO
A estrada amplia o mundo

Timor-Leste · 1999
Em novembro de 1999, desci de um avião militar australiano no aeroporto de Díli, em Timor-Leste.
Margaretha e eu havíamos chegado levando caixas de leite em pó e Bíblias. O país acabara de atravessar meses de violência depois do referendo pela independência. Havia destruição, deslocamento e muita gente tentando sair.
Nós estávamos entrando por escolha. Na pista, outras pessoas tentavam partir porque suas vidas haviam sido interrompidas.
Ninguém nos esperava.
No aeroporto havia uma religiosa europeia esperando outra irmã que, por alguma razão, não chegou naquele voo. Ela percebeu que parecíamos perdidos e se aproximou.
Logo descobrimos algo curioso: ela precisava exatamente do que carregávamos. Era responsável por um abrigo cheio de famílias deslocadas e crianças, e os alimentos estavam terminando.
Nós, por outro lado, precisávamos exatamente do que ela podia oferecer: alguém que conhecesse aquele lugar e nos ajudasse a chegar onde poderíamos ser úteis.
Durante muito tempo pensei em missão principalmente como ir. A estrada foi me ensinando que ir não significa chegar como alguém que possui todas as respostas.
Às vezes, chegamos trazendo alguma coisa. E descobrimos que também precisamos receber.
Outros países, outras culturas e outras fronteiras ampliaram meu mundo. Mas foram sobretudo os encontros que fizeram isso.
Pouco a pouco, missão deixou de ser apenas a pergunta...
O que eu tenho para levar?
O que preciso aprender quando chegar?
03 · ESTUDO · TEOLOGIA · DISCERNIMENTO
Compreender para transformar
A estrada produzia encontros. Os encontros produziam perguntas. E algumas perguntas exigiam mais do que respostas rápidas.
Em agosto de 2004, enquanto atravessava uma transição ministerial, escrevi um pequeno documento chamado Ideias para Ministério.
Ali apareciam expressões como pesquisa, reflexão, transformação, maturidade e aquilo que eu chamava de uma veia profética. Uma frase resumia parte daquela inquietação: compreender para transformar.
O nome Teleiós começaria a aparecer associado a essas ideias algum tempo depois.
Havia uma convicção se formando: antes de tentar mudar uma realidade, era preciso aprender a percebê-la. Isso me levou a pesquisar cidades, estudar contextos, viajar pelo Nordeste, ensinar missiologia, formar missionários e continuar fazendo perguntas.
A teologia nunca me interessou apenas como um sistema de respostas. Sempre me atraiu mais quando ajudava a olhar novamente para o mundo: para uma cidade, uma igreja, uma pessoa, para aquilo que parecia não estar funcionando como imaginávamos.
Muitos projetos daqueles anos tomaram caminhos diferentes dos planejados. Algumas ideias não se concretizaram da forma que esperávamos. Outras retornariam muito tempo depois com novos significados. Também nisso havia aprendizado.
Nem todo projeto precisa permanecer para que uma experiência permaneça.
Hoje, olhando para aquele documento de 2004, reconheço palavras que ainda me acompanham.
Talvez o Teleiós não esteja começando outra vez.
Talvez esteja voltando a uma pergunta antiga:
Como compreender melhor aquilo que a vida está nos mostrando — e permitir que essa compreensão transforme a maneira como caminhamos?

Ideias para Ministério · 2004
04 · REFÚGIO · PRESENÇA · HOSPITALIDADE
Quando o outro ganha nome
Em 2013, fui à Rua Santa Ifigênia, no centro de São Paulo, comprar equipamentos de som para a igreja onde eu servia como pastor.
O homem que nos atendia falava português com um leve sotaque. Perguntei de onde ele era.
— Da Síria.
— De qual cidade?
— Homs.
No domingo anterior, nossa igreja havia orado por aquela cidade. Contei isso a ele. O homem segurou meu braço, ficou alguns segundos em silêncio e então pediu para conversarmos.
Atravessamos a rua e fomos a um café.
Até aquele momento, Homs era uma cidade distante. A Síria era guerra, notícias, mapas, números. De repente, havia um homem diante de mim — com história, família, lembranças.Alguns meses depois, uma família síria de dezoito pessoas precisaria passar por São Paulo. Fui recebê-la no aeroporto. Durante alguns dias, nossa igreja tornou-se casa.
Vieram outras famílias. Outros aeroportos. Outras histórias.
Aquilo que começou como resposta a pessoas concretas foi exigindo formas mais organizadas de presença: programas, redes, uma casa de acolhimento, novas estruturas. Os nomes mudariam ao longo dos anos: Casa Refúgio, Abuna.
Mas talvez a mudança mais importante tenha acontecido antes de qualquer um desses nomes.
Uma grande questão do mundo muda de natureza quando deixa de ser apenas uma questão. Quando ganha rosto. Quando alguém se senta diante de nós. Quando sabemos seu nome.
05 · TERRITÓRIO · CONVIVÊNCIA · RECIPROCIDADE
A Casa aprende
Quando nos mudamos para Maringá, em 2018, levávamos conosco algumas experiências de acolhimento. Mas uma Casa nunca está pronta apenas porque encontramos um imóvel e abrimos a porta. As pessoas que chegam também a transformam.
Em agosto daquele ano, duas jovens venezuelanas estavam prestes a ser acolhidas na Casa Rosada. Elas não falavam português. Tínhamos um Regimento Interno que explicava a convivência da Casa, as responsabilidades e os acordos necessários para compartilhar aquele espaço.
Mas de que serviam nossas regras se quem chegava não conseguia entendê-las? Pedimos que o documento fosse traduzido.
Parece uma providência pequena. Hoje, porém, vejo naquela cena uma lição importante: hospitalidade exige mais do que convidar alguém a entrar. Às vezes é a própria Casa que precisa aprender uma nova língua.
Maringá nos ensinou também que acolhimento não acontece apenas dentro de paredes. Universidades, igrejas, profissionais, migrantes que já conheciam a cidade, poder público, amigos e voluntários foram se aproximando.
Algumas pessoas que chegaram inicialmente como estrangeiras passaram a abrir caminhos para quem vinha depois. Pouco a pouco, a Casa deixou de ser apenas aquilo que oferecíamos. Passou a ser também aquilo que conseguíamos construir com outros.
Em 2019, essa percepção atravessou uma fronteira. Em Bangkok, pessoas refugiadas que acompanhávamos não podiam simplesmente vir ao Brasil. Dessa vez, não era possível esperar que alguém chegasse até nossa porta. Precisávamos perguntar se a Casa poderia caminhar na direção delas.
Vieram relações. Depois, uma rede local. Um contrato. Chaves. Uma casa. Nossa primeira base internacional nasceu assim.Às vezes a pessoa chega à Casa.
Às vezes a Casa precisa encontrar um caminho até a pessoa.

Casa Rosada · Maringá, 2022

Casa Abuna · Bangkok, 2019
06 · AFEGANISTÃO · ESCALA · PRESENÇA
Quando uma Casa precisa tornar-se rede

Casa Rosada · Maringá, 2022

Operação Resgate, 2021
Em agosto de 2021, o mundo acompanhava as imagens de Cabul. Pessoas tentavam sair do Afeganistão. Famílias procuravam vistos. Organizações ao redor do mundo tentavam compreender o que poderia ser feito.
Também começamos a procurar caminhos.
Em poucos dias, algo que até então acontecia principalmente ao redor de algumas Casas passou a exigir outra escala. Organizações precisavam conversar entre si. Voluntários precisavam ser preparados. Era necessário dialogar com autoridades, embaixadas, igrejas e redes internacionais. Documentos atravessavam fusos horários. Famílias aguardavam respostas em diferentes países.
O acolhimento precisou tornar-se rede.
Nos meses seguintes, pessoas afegãs começaram a chegar ao Brasil e foram recebidas em diferentes cidades. Os números cresceram. As planilhas cresceram. As responsabilidades também.
Mas há uma memória daquele período que me ajuda a não deixar os números contarem a história inteira.
Em julho de 2022, escrevi sobre aquilo que estava acontecendo dentro de nossa própria casa: afegãos e brasileiros vivendo sob o mesmo teto. Refeições. Conversas. Risadas. Choro. Diferenças de língua, cultura e religião entrando na rotina da família.
Enquanto uma rede nacional se formava, o acolhimento continuava acontecendo ao redor de uma mesa.Uma rede permite alcançar mais longe. Mas nenhuma rede substitui presença.
Quando o trabalho se ampliou novamente e Marília passou a receber famílias afegãs, estávamos aprendendo outra vez que uma grande estrutura precisa continuar sendo capaz de enxergar uma pessoa.
A Casa havia se tornado rede. A rede, porém, continuava precisando aprender a ser Casa.
07 · TERRITÓRIO · DISCERNIMENTO · ESCRITA
Recomeços
Em março de 2025, Val e eu mudamos mais uma vez. Desta vez, para uma chácara em Campina Grande do Sul, na região de Curitiba.
O lugar oferecia algo precioso: silêncio, verde, espaço. Depois de viagens difíceis e experiências traumáticas, muitas das pessoas que recebíamos precisavam antes de tudo respirar. Campina fazia isso muito bem.
Durante algum tempo, parecia exatamente aquilo de que precisávamos. Mas o território também começou a nos ensinar seus limites.
Para quem pretendia reconstruir a vida na região de Curitiba, chegar à cidade significava muito mais do que ter um lugar seguro para dormir. Era preciso aprender português, procurar trabalho, usar transporte público, encontrar escola, ir ao mercado, conhecer vizinhos, construir relações.
Pouco a pouco, percebemos uma tensão que não tínhamos visto com a mesma clareza no início: o mesmo lugar que oferecia proteção e descanso podia dificultar integração e autonomia.
Foi então que começamos a procurar outra presença na cidade. Não para abandonar Campina, mas porque aprendíamos que lugares diferentes podiam servir momentos diferentes do caminho.
Enquanto isso, Marília nos ensinava algo semelhante por outra direção. Ali, relações com pessoas, universidade, igrejas, poder público e amigos foram criando uma rede antes que houvesse uma nova casa formal de acolhimento. Quando a Casa Verde abriu suas portas, a Casa já existia de alguma maneira. Existia nas relações.
Também começamos a perceber que nem toda pessoa que nos procurava precisava morar conosco. Algumas famílias tinham recursos para reconstruir a própria vida, mas precisavam compreender documentos, cidades, custos, trabalho, idioma e cultura.
A hospitalidade começava antes da chegada ao Brasil. E nem sempre terminava numa cama oferecida por nós.
Não existe uma única forma de acolher.
Às vezes é uma casa. Às vezes é uma mesa. Às vezes é informação. Uma ligação. Uma tradução. Uma rede. Alguém esperando no aeroporto. Alguém que conhece a cidade. Alguém que permanece por perto depois que a porta da Casa já não é necessária.
Foi nesse tempo que comecei também a voltar a alguns escritos antigos. Pastas. Fotografias. Canções. Cartas. Textos que eu já não lia havia anos.
E descobri algo inesperado: muitas das palavras que eu imaginava estar encontrando agora já haviam aparecido, de outras formas, muito antes.
Estrada. Escuta. Encontro. Casa. Mesa. Recomeço.
Em agosto de 2026, o antigo boletim que enviávamos aos amigos ganhou outro nome: Carta da Casa.
A mudança parece pequena. Mas talvez diga algo sobre esta estação da caminhada. Já não quero apenas contar o que fizemos. Quero prestar atenção ao que a experiência está fazendo conosco.
Voltar ao caminho. Escutar novamente algumas histórias. Reconhecer encontros e desencontros. Perceber aquilo que tivemos de deixar, aquilo que retornou e aquilo que ainda não compreendemos.
Talvez seja isso que o Teleiós voltou a ser para mim: não um lugar de respostas prontas, mas uma mesa onde experiências antigas e perguntas presentes podem voltar a conversar.
Algumas coisas só recebem nome muito tempo depois de terem sido vividas.
Talvez seja por isso que continuo escrevendo: não para explicar tudo o que passou, mas para escutar melhor aquilo que o caminho ainda tem a dizer.

Campina Grande do Sul, 2025

Carta da Casa · “Tempos de Recomeços” · ago 26
O caminho deixa vestígios
Esta página conta apenas parte da história.
Ao longo do caminho ficaram textos, capítulos de livros, entrevistas, fotografias, gravações, participações públicas e documentos de diferentes épocas.
Alguns ajudam a compreender melhor de onde vieram determinadas perguntas. Outros simplesmente preservam uma estação.
Reuni alguns desses vestígios no Arquivo — não como uma lista de realizações, mas como sinais de uma caminhada.