Ano Novo e sincretismo no Irã ~ Samy Adghirni

Iraniana pula fogueira durante a celebração do “chaharshanbe suri” (última quarta-feira do ano persa) em Teerã (Vahid Salemi – 14 mar 12/Associated Press)

A celebração do Nowruz (Ano Novo Persa) revela muita coisa sobre a complexidade cultural dos iranianos, mostrando inclusive o quanto eles formam um povo com pouca ou nenhuma semelhança com os vizinhos árabes, turcos, curdos etc.

[Folha SP, 17 mar 12] O Irã está mergulhado num clima de alegria, cordialidade e compaixão. O país vive a efervescência que antecede o dia mais esperado pela população: o Ano Novo Persa, conhecido como Nowruz. A virada ocorre na próxima terça-feira (20 mar), quando começam ao mesmo tempo o ano persa de 1391, a primavera e as férias escolares.

A celebração do Nowruz revela muita coisa sobre a complexidade cultural dos iranianos, mostrando inclusive o quanto eles formam um povo com pouca ou nenhuma semelhança com os vizinhos árabes, turcos, curdos etc.

Primeiro, é curioso notar que esta maneira de contar os anos praticamente só existe no Irã, que tem população e governo islâmicos mas não segue o calendário muçulmano tradicional (atualmente em 1433). O ponto de partida é o mesmo: o ano de 622 D.C, quando o profeta Maomé migra da Meca para Medina. Mas os persas adotaram em seguida um calendário solar, enquanto os árabes mantiveram e espalharam ao longo dos avanços islâmicos na Ásia e na África uma contagem lunar, com anos mais curtos. Daí a discrepância nas contas.

Mais curioso ainda é constatar a prática até hoje generalizada de rituais e tradições que remontam ao zoroastrismo, fé local monoteísta e multimilenar que não tem nada a ver com o islã. Dois hábitos com jeito de mandinga me deixaram atônito. Na noite da última quarta-feira do ano persa, as pessoas fazem fogueiras nas ruas e pulam por cima dizendo algo como: “minha palidez amarela é tua, tua ardente luz vermelha é minha”. Praticamente um culto ao fogo em pleno país muçulmano.

Outra prática meio pagã é o Haft Sin, que significa literalmente os “sete S” e visa trazer sorte no Ano Novo. Consiste em montar em casa antes do Nowruz uma mesa com sete produtos cujo nome começa com o equivalente da letra “S” no idioma farsi. A lista padrão inclui maçãs para simbolizar saúde e beleza e um frasco de vinagre que representa paciência e sabedoria, entre outros objetos. Nada disso consta no Corão ou nos Hadiths, os relatos dos companheiros de Maomé.

Alguns clérigos mais conservadores abominam tudo isso dizendo que se trata de superstição, algo incompatível com o islã. Mas um amigo iraniano fotógrafo de uma agência de notícias gringa, sujeito xiita devoto, me explicou que a maioria dos iranianos não vê esses costumes como algo religioso. “Pular a fogueira e montar uma mesa com os sete S é tradição ancestral, faz parte da nossa cultura. Não é porque veio antes do islã que é incompatível com o Corão”.

Bem resolvidos com suas raízes sincretistas, os iranianos ficam eufóricos com o Nowruz. Teerã vibra num clima idêntico ao do Natal ocidental, com lojas e shoppings abarrotados de gente comprando presentes para amigos e parentes. Logo mais a cidade ficará esvaziada, com quase todo mundo viajando. As estradas já estão atoladas de engarrafamentos. Rodoviárias e aeroportos viraram formigueiros de gente.

Quando o movimento das partidas estiver encerrado, talvez já neste domingo (18 mar), Teerã se transformará numa agradável cidade sem trânsito.

O cenário já melhorou muito com a repentina chegada dos dias de sol. Há uma semana a neve ainda batia na janela da minha casa. Hoje já saio sem o casacão de inverno que eu usava desde minha chegada por estas bandas, em dezembro. Chamam isso de “milagre de Nowruz”. Me disseram que nos próximos dias as flores cobrirão parques, jardins e canteiros.

A mania tão iraniana de dar presentes atinge extremos nesta época. Tenho ganhado brindes de vários comerciantes, inclusive do doleiro, que me deu uma agenda com capa de couro. Até o regime me mandou um bonito calendário com delicados votos de felicidade. Minha assistente também recebeu. Colegas jornalistas veteranos no Irã dizem que eu preciso retribuir, no mínimo, com uma caixa de chocolates às moças que servem de interface entre o governo e a mídia estrangeira.

As pessoas também costumam ficar mais genorosas com os necessitados, para que todo mundo possa desfrutar de uma passagem de ano digna.

Nowruz é ainda sinônimo de 13º salário, e nessa eu fui pego de surpresa. Tive que reorganizar minhas contas para pagar o devido mês adicional para a assistente, a professora de farsi e a diarista, que também ganham folga.

Deixe uma resposta