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Conversas ao redor da mesa

Foto do escritor: José Prado
José Prado
10 de set.
4 min de leitura


Uma noite fria, um mate, três idiomas e a pergunta inesperada de um pai sírio sobre Jesus e a igreja.


José Prado · Curitiba · Setembro de 2026


Nesta semana tive uma daquelas conversas que, de tão profundas e simples, não deixam dúvida de que foram preparadas pelo Eterno.


Era uma noite chuvosa e fria, mesmo para Curitiba.


Dois de nossos acolhidos sírios, que estão trabalhando como entregadores de moto, haviam encerrado o expediente mais cedo por causa da chuva. Estavam no refeitório tomando mate. A esposa de um deles também estava ali.


Cheguei e fui convidado a me juntar a eles.


A conversa começou falando do frio, do trabalho, dessas coisas comuns que ocupam uma mesa. Até que, de repente, um deles perguntou:

— Senhor José, por que tem tantas pessoas morando na rua aqui em Curitiba?

Eles estão no Brasil há apenas quatro meses. Ainda aprendem português e já estão trabalhando. Um deles comentou que, na Síria, apesar de todos os problemas econômicos, não via tantas pessoas vivendo nas ruas. Tentava entender por que isso acontecia aqui.


Conversamos sobre a complexidade das histórias que podem levar uma pessoa a viver nas ruas. Pobreza, rompimento de vínculos familiares, dependência, sofrimento psíquico, violência, perda do trabalho. Não havia uma resposta simples.


Eles ouviam atentamente. Às vezes precisávamos parar e recorrer ao tradutor do celular. Árabe, português e inglês se encontravam sobre a mesa.


Então veio uma pausa.

— Eu me preocupo com meu filho.

Falava do menino de dois anos.

Mais alguns segundos de silêncio.

E então veio outra pergunta:

— Qual é a melhor igreja?

Agora era eu quem precisava de uma pausa.

Ele continuou:

— Tenho observado vocês, cristãos. Sei que existem diferenças. Quero que meu filho cresça num ambiente saudável. Tenho visto como vocês cuidam uns dos outros. Quero que meu filho cresça assim.

Pensei um pouco antes de responder.

Disse que não lhe diria qual era a melhor igreja. Mas poderia oferecer um parâmetro:

— Veja o quanto ela se parece com Jesus.

Porque, para mim, esse é o critério. O quanto as pessoas que fazem parte dela se parecem com Jesus. Porque ser cristão é isso: tornar-se parecido com Jesus.


Por isso, antes de escolher uma igreja, eles precisariam conhecer Jesus.


Sugeri que começassem pelos Evangelhos.

— Aprendam de Jesus. Observem como ele cuidava das pessoas. Como recebia as crianças. Como tratava as mulheres. Como se aproximava daqueles que os outros evitavam. Vejam o que ele ensinava, como viveu e como morreu.

Se conhecessem Jesus, teriam um bom parâmetro para reconhecer uma igreja saudável.


A conversa continuou.


E fiquei pensando que há diferentes maneiras de mostrar Jesus às pessoas.


No nosso caso, há treze anos buscamos ser uma casa para quem foi forçado a deixar a sua casa por causa de guerras e perseguições.


Nosso coração tem estado aberto também àqueles que não têm a nossa fé.


Não colocamos a fé como condição para que alguém seja recebido. Não esperamos que uma pessoa creia como nós para que tenha lugar à mesa.


Escolhemos acolher, amar, respeitar e servir.


E quase sempre isso acontece de maneiras muito comuns.


Ajudar alguém a preencher um documento. Procurar uma casa. Acompanhar uma consulta. Ensinar português. Resolver um problema no cartório. Buscar alguém ao aeroporto. Procurar emprego. Sentar para tomar mate.


Coisas pequenas.


Corriqueiras.


Às vezes cansativas.


Frequentemente administrativas.


Mas é justamente no meio dessa vida comum que, de vez em quando, alguma coisa acontece.


Uma pergunta aparece.


Uma porta se abre.


E percebemos que há uma conversa muito maior acontecendo.


Quando uma pessoa chega até nós depois de atravessar guerras, perseguições, fronteiras e perdas, é fácil enxergá-la apenas a partir daquilo que lhe aconteceu.


Mas ninguém é feito somente de suas perdas.


Há beleza, saberes, capacidades, vínculos, memória, cultura. Há uma dignidade que não foi destruída pelo deslocamento e uma vida inteira procurando novamente espaço para florescer.


Talvez por isso a hospitalidade exija de nós mais do que oferecer ajuda.


Ela exige atenção.

É preciso vigiar.

Perceber.

Escutar.


Porque nunca sabemos quando será a hora, o lugar ou o contexto em que uma pergunta abrirá uma fresta e nos permitirá perceber que o Espírito Santo já estava trabalhando ali muito antes de nós.


Naquela noite, a fresta apareceu ao redor de uma mesa.


Entre o frio de Curitiba, o mate e celulares traduzindo árabe, português e inglês.


Isso não significa que todos, ou mesmo a maioria daqueles que acolhemos, seguirão a nossa fé.


Essa decisão pertence a cada um.

Jesus mesmo dizia:

— Se alguém quiser me seguir...

Há um convite. Há liberdade.

Talvez nossa responsabilidade seja muito mais simples — e, ao mesmo tempo, muito mais exigente.


Estar presentes.

Abrir a porta.

Preparar a mesa.

Reconhecer a dignidade de quem chega.

Caminhar junto pelo tempo que nos for dado.

E permanecer atentos.


Porque talvez, no meio de uma conversa absolutamente comum, alguém faça uma pergunta que não estávamos esperando.


E então descobrimos que aquela conversa não começou conosco.


A nós cabe amar, servir, permanecer atentos e procurar não atrapalhar aquilo que D’us está fazendo.


Da série “Conversas ao redor da mesa”

Histórias, perguntas e encontros que surgem no cotidiano da hospitalidade.

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