A casa a cem metros

Eu tinha dezessete anos quando meu pai finalmente conseguiu me dar uma flauta transversal.
Desde os oito ou nove anos eu tocava flauta doce e desejava aquele instrumento. Para as condições financeiras de nossa família, porém, uma flauta transversal parecia inalcançável. Sua chegada carregava muito mais que o brilho de um objeto novo. Ela continha anos de espera, o sacrifício do meu pai e a sensação de que um sonho antigo finalmente cabia em minhas mãos.
Havia apenas um problema: eu não conseguia extrair dela um único som.
A embocadura era muito diferente daquela que eu conhecia. Eu tinha o instrumento, mas ainda não tinha acesso à sua voz. O sonho estava realizado e, ao mesmo tempo, continuava fora do meu alcance.
Naquela época não havia internet onde procurar um professor ou assistir a uma aula. Fizemos então o que era possível: começamos a perguntar aos vizinhos.
Foi assim que descobrimos que, a cerca de cem metros de nossa casa, na Lapa, morava João Dias Carrasqueira.
Fui a pé. Toquei a campainha, fui instruído a entrar pelo corredor lateral e, no fundo, subir uma pequena escada até o piso superior da edícula. Já no corredor comecei a ouvir o som de flautas. Não uma. Parecia um trio ou quarteto. Entrei naquela sala grande, fui convidado a sentar e ouvir. Diante dos alunos, um homem pequeno, já idoso, com um bigodinho bem-feito e uma boina. Nunca esquecerei essa cena. Estava entrando num universo que eu não tinha condições de imaginar.
Carrasqueira não era apenas um professor de flauta que, por coincidência, morava perto. Era um dos grandes flautistas brasileiros. Sua vida atravessava a música erudita, mas também o choro, o rádio e as orquestras do rádio; havia sido contemporâneo e parceiro musical de artistas extraordinários, entre eles Pixinguinha. Na sala daquela casa de bairro havia uma história da música brasileira que eu ainda nem sabia reconhecer.
Mas o que primeiro me alcançou não foi seu currículo. Foi sua maneira de ensinar.
Seu rigor não separava técnica e musicalidade. A sonoridade, a respiração e a precisão conviviam com serestas, valsas, choros e xotes. Música brasileira não era um repertório menor, usado como intervalo entre obras consideradas sérias. Era matéria de formação. Carrasqueira ensinava também por histórias, desenhos, convivência e pela experiência de fazer música junto. Para cada aluno, no final de cada aula, ele compunha uma pequena peça, escrevendo no nosso caderno, assoviando junto. Na peça, ele trabalhava justamente os pontos em que nós tínhamos dificuldade. Tenho esse caderno até hoje. Eram melodias simples, mas, ao mesmo tempo, lindíssimas.
Algumas vezes, na semana de algum concerto, eu era chamado para acompanhar os ensaios. Agora já na sala principal da casa, não mais na edícula. Ali, num lindo piano de cauda, estava sua filha Maria José e o irmão dela, Toninho, ambos exímios concertistas. Não demorou muito para que começasse a ir aos seus concertos no Teatro Cultura Artística, no Municipal e em outros lugares. Entre o adolescente que ainda aprendia a produzir um som e aquele músico reconhecido parecia existir uma distância impossível de atravessar.
Naquele momento, eu era apenas o aluno que tocava a campainha e entrava, talvez ainda intimidado, naquele ambiente de gente grande.
Alguns anos depois, em 1990, quando passei no concurso para a cadeira de saxofone na formação inicial da Orquestra Jazz Sinfônica do Estado de São Paulo, Toninho seria meu companheiro. O músico que eu observara de longe estaria sentado ao meu lado. Mais que colega de orquestra, ele se tornaria um dos meus melhores amigos daquela estação.
O caminho às vezes produz essas aproximações que ninguém conseguiria planejar. Uma pessoa aparece primeiro como mestre, referência ou presença quase inalcançável. Mais adiante, a estrada nos coloca na mesma sala, no mesmo palco ou diante da mesma responsabilidade.
Também carreguei as aulas de Carrasqueira para outros lugares. Parte do repertório brasileiro que aprendi com ele chegou ao Grupo Pescador. Algumas dessas músicas receberam harmonizações de João Alexandre e ajudaram a formar a atmosfera de Contraste, gravado no fim de 1983 e lançado no ano seguinte.
Na capa e entre os amigos, eu era o Zé da Flauta.
É interessante olhar para esse nome agora. A flauta não foi somente o instrumento que eu tocava. Foi uma das primeiras roupas que vesti. Ela me deu uma voz, um lugar entre outros músicos e acesso a mundos que pareciam muito distantes da realidade da minha família.
Mas essa roupa não foi feita apenas de talento ou desejo. Nela estavam o sacrifício do meu pai, a pergunta feita aos vizinhos, a generosidade de um mestre e todas as histórias que chegaram até mim pelas mãos e pelo sopro de Carrasqueira.
Depois das aulas, muitas vezes eu ia encontrar Val. Nós nos conhecíamos desde crianças e, no fim da adolescência, começávamos a nos olhar de outra maneira. Enquanto uma estrada musical se abria, outra história também começava a ganhar forma. Eu ainda não podia saber que Val atravessaria comigo todas as roupas e estações seguintes.
Hoje, quando releio aquele encontro, sou tentado a chamá-lo de acaso, providência ou graça. Talvez cada palavra enxergue uma parte. Nenhuma delas, sozinha, explica tudo.
Meu pai precisou fazer um sacrifício real para que a flauta chegasse. Alguém precisou perguntar. Eu precisei percorrer a distância, tocar a campainha, voltar para outras aulas e estudar. Carrasqueira precisou abrir a porta e repartir comigo aquilo que recebera ao longo de uma vida inteira.
A proximidade não anulou o caminho.
Às vezes aquilo que nos transformará já está muito perto. Isso não significa que seja pequeno, comum ou facilmente alcançável. Pode haver apenas cem metros entre uma casa e outra — e, ainda assim, uma história inteira a atravessar.
Continuo me perguntando quantas portas como aquela existem perto de nós. Quantos encontros decisivos permanecem invisíveis porque ainda não sabemos a quem perguntar. Quantas histórias extraordinárias habitam casas comuns, em ruas por onde passamos todos os dias.
E quantas vezes seguramos nas mãos aquilo que tanto desejamos, mas ainda precisamos de alguém que nos ensine a encontrar sua voz.

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