A pessoa que não chegou

Quando descemos na pista do aeroporto de Dili, vimos uma fila de pessoas tentando entrar no avião em que havíamos acabado de chegar.
Eram principalmente mulheres, crianças e idosos. Carregavam sacolas e pequenas malas. Em seus rostos havia angústia e medo. Nós caminhávamos em direção ao saguão; eles procuravam uma forma de deixar a cidade.
Era novembro de 1999. Poucos meses antes, a população de Timor-Leste havia escolhido, em consulta organizada pelas Nações Unidas, o caminho da independência. Depois do resultado vieram a violência, os incêndios, os saques e o deslocamento de milhares de pessoas. Dili carregava os sinais dessa destruição.
Eu e Margaretha Adwardana estávamos entrando por escolha. Aquelas pessoas tentavam sair porque sua vida havia sido interrompida. Nós carregávamos passagem de volta. Para muitas delas, tudo o que ainda podia ser levado parecia caber naquelas pequenas bagagens.
O avião pertencia ao exército australiano. Conseguimos lugar num voo de observação depois de atravessar uma sequência de impedimentos e coincidências. Fronteiras, estradas, comunicações e voos estavam bloqueados. Desde a Indonésia, ouvíamos a mesma pergunta: por que vocês querem entrar quando todos estão tentando sair?
Não tínhamos uma resposta simples.
Uma viagem que começou com uma pergunta
Alguns dias antes, durante um congresso missionário em Foz do Iguaçu, recebemos um pedido urgente de oração. Uma equipe de missionários brasileiros estava desaparecida em Timor-Leste. Não havia comunicação e ninguém sabia se estavam vivos.
Oramos. Depois surgiu outra pergunta: o que mais poderíamos fazer?
Missionários mais experientes avaliavam que dificilmente conseguiriam entrar naquele território. Alguém observou, porém, que a língua portuguesa e a simpatia dos timorenses pelos brasileiros talvez abrissem uma passagem. Conversei com Val, ouvi conselheiros e me dispus a ir. Margaretha e Hsiung fariam parte da equipe. Em poucos dias, amigos reuniram recursos. Compramos leite em pó e centenas de Bíblias.
Hsiung, porém, numa das escalas, não recebeu autorização para embarcar para a Indonésia. Margaretha e eu prosseguimos.
Nosso caminho passava por Jakarta, Bali e Timor Ocidental. Quando chegamos a Bali, fomos avisados de que, por causa do conflito, nossa próxima escala havia sido cancelada. Perguntamos por uma alternativa. Havia apenas uma, mas o avião de que precisávamos partiria de Timor Ocidental três horas antes da chegada do nosso. Era o único voo daquela semana. Não havia outra ligação possível.
Olhamos um para o outro, depois para as caixas de leite em pó e as malas com as Bíblias. Pensamos por alguns segundos e decidimos comprar as passagens mesmo assim. Se o Senhor já nos havia levado até ali, talvez tivesse um caminho que ainda não conseguíamos ver.
Seguimos no voo disponível sem saber o que faríamos ao chegar. Orávamos por mais um milagre. Quando nos aproximamos da pista, vimos ao longe uma pequena sombra. Seria? À medida que o avião descia, a forma se tornou mais nítida. Sim, parecia um avião — o único naquela pista.
Ao aterrissarmos, ainda taxiando, percebemos que a outra aeronave estava com as hélices ligadas e a porta do compartimento de bagagem aberta. Funcionários terminavam de carregá-la.
Não podia partir sem nós.
Era justamente o único voo semanal, ainda ali, três horas atrasado.
As aeronaves pararam próximas uma da outra. Descemos correndo. Combinamos que Margaretha iria diretamente para o outro avião, na tentativa de segurá-lo, enquanto eu descarregava as mochilas, as caixas de leite e as Bíblias. A transferência aconteceu ali mesmo, pela pista. A passagem que não existia quando decidimos continuar apareceu depois.
Em Timor Ocidental, outra surpresa nos aguardava. Por sermos identificados como religiosos e transportarmos grande quantidade de leite em pó, conseguimos um passe especial da FAO, a agência das Nações Unidas ligada à alimentação. Isso nos abriu a possibilidade de fazer o último trecho num avião militar do exército australiano, que voou muitas vezes a baixa altitude e com as portas abertas.
Foi dele que desembarcamos diante da fila que tentava fugir.
Ninguém estava nos esperando
Seguimos pela pista até o saguão. O aeroporto parecia deserto.
Não havia equipe, táxi, recepção ou orientação. Não conhecíamos ninguém que pudesse nos buscar. Não sabíamos para onde ir nem o que fazer com todas aquelas caixas. Depois de tanto esforço para entrar, descobrimos que a chegada não era o fim do caminho. Estávamos literalmente perdidos e sozinhos.
Havia, porém, uma religiosa europeia no aeroporto. Ela nos observou por algum tempo e perguntou quem éramos e por que estávamos ali.
Ela não tinha ido nos receber.
Esperava outra freira, que deveria ter chegado no mesmo avião. Mas a pessoa que ela aguardava não desembarcou.
Foi esse desencontro que a manteve no aeroporto. Se a outra religiosa tivesse chegado como previsto, talvez as duas já tivessem partido quando entramos no saguão. A ausência de alguém criou o tempo em que pudemos ser vistos.
Quando soube que éramos brasileiros e entendeu por que havíamos viajado, ela nos ofereceu carona em sua caminhonete. Então perguntou o que havia dentro das caixas.
— Leite em pó.
Sua reação foi de gratidão. Ela cuidava de um abrigo para refugiados com muitas crianças e, naquela mesma manhã, havia orado porque os alimentos estavam acabando.
Nós precisávamos do transporte que ela possuía. Ela precisava exatamente daquilo que carregávamos. Nenhum de nós apareceu naquela cena como alguém autossuficiente vindo salvar o outro. Éramos pessoas com recursos e faltas diferentes, encontradas no mesmo lugar.
Margaretha seguiu na cabine. Eu fui na caçamba, junto às caixas.
O abrigo
A primeira parada foi um ginásio transformado em abrigo. Centenas de famílias delimitavam pequenos espaços com esteiras, panelas, sacolas de roupa e alguns animais domésticos. Havia poucos sanitários, odor forte, bebês e crianças com fome. Muitas pessoas ainda estavam em choque depois de ver suas casas queimadas e familiares mortos.
Era a primeira vez que eu entrava num abrigo para refugiados.
Em meio àquela multidão, vi uma criança sentada sozinha numa esteira, vestindo uma camisa amarela. Olhei novamente e reconheci: era a camisa da seleção brasileira. Fiz um pequeno aceno, apontei para ela e recebi um sorriso largo. Foi um gesto pequeno, incapaz de corrigir a destruição ao redor. Mas, por um instante, a multidão voltou a ter um rosto e eu deixei de ser apenas um estrangeiro que havia chegado com caixas.
Nos dias seguintes, circulamos por Dili num pequeno carro vermelho, conversando com moradores e soldados das forças de paz. Conseguimos chegar ao lugar onde funcionara a base missionária. Estava totalmente queimada, com paredes e teto caídos.
Nosso coração apertou. Não sabíamos o que dizer nem o que pensar. Oramos outra vez: Senhor, protege-os. Ajuda-nos a encontrá-los.
Finalmente soubemos que havia brasileiros no acampamento das forças portuguesas. Encontramos ali a equipe que procurávamos, viva e em segurança.
A missão que começara com nomes desaparecidos terminou com rostos encontrados. Mas Timor não terminaria para mim quando deixássemos a ilha.
A experiência ajudou a dar origem à AME, uma iniciativa missionária voltada a responder também em situações de emergência humanitária. Muitos anos depois, quando famílias sírias começaram a chegar ao Brasil, eu ainda carregava imagens que havia recebido naquele primeiro abrigo: a perda da casa, o deslocamento forçado, a precariedade e a necessidade de que alguém esteja presente quando se chega.
O que fazer com um desencontro
Durante muito tempo, contei essa história como um relato de portas que se abriram: o avião atrasado, o passe obtido, o voo militar, a caminhonete, o leite que chegou quando faltava alimento.
Hoje, outro detalhe me chama a atenção.
Nós só fomos encontrados porque alguém não chegou.
Não sei por que a outra freira não estava naquele avião. Não sei o que sua ausência significou para ela nem para quem a esperava. Seria indevido transformar aquilo que talvez tenha sido preocupação, atraso ou frustração para outras pessoas numa explicação construída apenas a partir do benefício que recebemos.
O desencontro não era bom em si mesmo. Mas produziu uma espera. E, dentro dessa espera, alguém permaneceu disponível para perceber duas pessoas perdidas.
Talvez existam acontecimentos cujo sentido não possa ser reduzido a uma única história. Aquilo que para alguém foi ausência, para outro se tornou presença. O voo que se atrasou abriu nossa conexão, mas manteve outras pessoas esperando. O avião que nos permitiu entrar era o mesmo em que famílias esperavam sair.
As direções se cruzavam, mas não eram iguais.
Quando me lembro daquela pista, ainda vejo as pequenas malas e os rostos angustiados. Quando me lembro do saguão, vejo uma mulher que continuou ali porque a pessoa esperada não chegou. E quando me lembro da caminhonete, percebo que nós também precisávamos ser acolhidos antes que pudéssemos oferecer aquilo que carregávamos.
Algumas vezes, o desencontro é apenas uma perda. Em outras, deixa alguém no lugar exato em que outra pessoa precisa ser encontrada.

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