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Carta da Casa — Setembro 2026

Foto do escritor: José Prado
José Prado
10 de set.
7 min de leitura

Há diferentes tempos dentro de uma casa.


Há o tempo de esperar. O tempo de chegar. O tempo de aprender uma nova língua, fazer documentos, procurar trabalho. Há perguntas que surgem depois de alguns meses ao redor de uma mesa. E há sementes que precisam de anos até que possamos finalmente colher seus frutos.


Neste setembro, histórias que estão em capítulos muito diferentes se encontraram dentro da Casa.


Finalmente em casa


Depois de exatos 30 dias na UTI neonatal em Marília, nossa netinha Luiza finalmente alcançou 2kg e pode ir pra casa — nos braços da Larissa e do Matheus. Apesar de ter nascido bem abaixo do peso, não teve NENHUMA intercorrência médica, deixando a equipe surpresa. Ela é um grande milagre! Aleluia! Alegre-se conosco!


Luiza dormindo, envolvida em uma manta rosa, depois de deixar a UTI neonatal.

Também celebramos a chegada do Alan, dia 18, o primeiro filho de uma moça síria que acolhemos. Ele nasceu num hospital perto de nossa base em Campina Grande do Sul e, durante o parto, adquiriu uma infecção bacteriana que o levou à UTI neonatal por menos de uma semana. Recuperou-se e já recebeu alta. Como já tínhamos o Marcelo, nascido dia 4, em menos de 15 dias recebemos dois bebês na nossa base. Haja emoção (e fraldas)!


O pai do bebê Alan ainda está na Síria. Não conseguiu autorização para vir ao Brasil junto com a esposa. Nas últimas semanas, boa parte do nosso trabalho foi também administrativo: encontrar e viabilizar o caminho para que o nome do pai constasse na certidão de nascimento do filho. Aguardamos a emissão do documento ainda esta semana.


Às vezes acolher é estar ao lado numa UTI. Outras vezes é descobrir como fazer um nome atravessar fronteiras e labirintos burocráticos e chegar corretamente à certidão de nascimento de um filho. Tudo isso também é Casa.


Novas histórias entrando pela porta


No final de julho, nossas portas da "Casa Verde", em Marília, se abriram para receber uma moça cristã de um país do norte da África, perseguida por causa da fé que decidiu abraçar.


Quando acolhemos alguém, sabemos que não estamos recebendo uma folha em branco. Cada pessoa chega trazendo uma história inteira — muitas vezes ainda desconhecida por nós — que, pouco a pouco, passa a fazer parte do cotidiano da Casa.


Com ela chegaram também marcas de agressões e ameaças, perdas, feridas emocionais e necessidades de saúde. Há ainda as diferenças culturais, um idioma desconhecido e a dificuldade de comunicar até as necessidades mais simples.


Nossa equipe tem caminhado com ela nesse processo e, graças também ao nosso SUS, ela está recebendo os cuidados de saúde necessários.


Mas sua chegada trouxe outra história para dentro da nossa.


Ela nos falou de um jovem casal de seu país que acabara de chegar a São Paulo. Estavam sem contatos, quase sem recursos e sem conseguir se comunicar em português. O pouco dinheiro que tinham havia sido usado para pagar uma pensão por uma semana. O prazo estava terminando e eles não tinham para onde ir.


Acionamos nosso protocolo de emergência, intérprete e entrevistas e, pouco depois, a Casa ganhou mais dois moradores.


São jovens, dispostos a aprender e têm avançado muito bem no português. Já iniciamos também a regularização dos documentos dos três.


Aula de português ao redor da mesa na Casa Verde, em Marília.

Na Casa Verde, em Marília, o português faz parte dos primeiros passos de quem chega.


Contamos um pouco dessa história para trazer você para dentro da Casa.


Acolher nunca é simplesmente oferecer uma cama ou um endereço. É receber uma pessoa inteira — com aquilo que sofreu, certamente, mas também com sua cultura, suas capacidades e tudo aquilo que ainda poderá oferecer. Cada vida tem uma história. E cada história pede atenção, sabedoria, discernimento, recursos, paciência e presença.


Conversas ao redor da mesa


Neste mês, uma dessas histórias apareceu numa conversa muito comum no refeitório da nossa nova base em Curitiba, que aos poucos vai sendo ocupada. Era uma noite fria e chuvosa. Dois de nossos acolhidos sírios haviam encerrado mais cedo o trabalho como entregadores de moto e estavam tomando mate. A esposa de um deles também estava ali.


Sentei-me com eles. Falávamos do frio e do trabalho quando um deles perguntou por que havia tantas pessoas morando nas ruas de Curitiba. Conversamos sobre pobreza, rompimento de vínculos, dependência, sofrimento psíquico, violência e perda do trabalho. Árabe, português e inglês se misturavam sobre a mesa, com a ajuda do tradutor do celular.


Depois de uma pausa, ele disse que se preocupava com o filho de dois anos. E então fez outra pergunta: qual era a melhor igreja?


Expliquei que não conseguiria lhe dizer qual era a melhor igreja, mas faria algo melhor. "Vou lhe dar um parâmetro, e a partir dele você mesmo poderá avaliar: veja o quanto ela se parece com Jesus".


Sugeri que começassem pelos Evangelhos. Que conhecessem Jesus, observassem como ele recebia as pessoas, tratava as crianças, as mulheres e se aproximava daqueles que os outros evitavam. Se conhecessem Jesus, teriam um bom parâmetro para reconhecer uma igreja saudável. Me coloquei à disposição para acompanhá-los nessa busca.


Fiquei pensando depois que há diferentes maneiras de mostrar Jesus às pessoas. No nosso caso, há treze anos buscamos ser "uma casa para quem foi forçado a deixar a sua casa". Não colocamos a fé como condição para que alguém seja recebido. Escolhemos acolher, amar, respeitar e servir.


E quase sempre isso acontece de maneiras muito comuns: preencher um documento, procurar uma casa, acompanhar uma consulta, ensinar português, resolver um problema no cartório, procurar emprego ou simplesmente sentar para tomar mate.


Talvez por isso a hospitalidade exija de nós mais do que oferecer ajuda. Ela exige atenção. É preciso vigiar, perceber e escutar.


Escrevi uma reflexão mais demorada sobre aquela noite e o que essa conversa despertou em mim. Você pode lê-la no Teleiós: “Conversas ao redor da mesa” — https://www.teleios.com.br/post/conversas-ao-redor-da-mesa


Um fruto colhido quatro anos depois


No dia 4 de setembro, recebi uma mensagem de Aman, médico afegão, especialista em cirurgia pediátrica, que acolhemos com sua família em junho de 2022:

“Hoje o resultado definitivo da prova Revalida saiu. Eu aprovei.”

Que alegria!


Imediatamente me lembrei de uma conversa que tivemos pouco depois de sua chegada ao Brasil.


Haviam oferecido a Aman um emprego em um frigorífico. Ele veio me procurar para pedir conselho. Disse que sabia que daria conta do trabalho, apesar de ser um serviço braçal. Sua preocupação era outra: se aceitasse aquele emprego, provavelmente não teria tempo nem forças para aprender português e estudar. E, sem isso, temia nunca conseguir exercer novamente a medicina.


Lembro-me de olhar para ele e fazer uma proposta bastante ousada: se ele se comprometesse a dar tudo de si no aprendizado do português e na preparação para revalidar seu diploma, nós caminharíamos com ele e garantiríamos o necessário para que pudesse se dedicar a esse caminho.


Ele sorriu, com lágrimas nos olhos.


E se comprometeu.


Aman e Fátima, em 2022, ao lado de materiais de estudo para a revalidação de seus diplomas de medicina.

Aman e Fátima, em 2022, no início do longo caminho de preparação para a revalidação de seus diplomas.


O caminho foi mais longo do que talvez imaginássemos naquela conversa.


Foram quatro anos de português, provas, estudos, novas tentativas e muito trabalho. Nesse período, Aman e sua esposa, Fátima, ingressaram no mestrado em Ciências da Saúde da UEM e concluíram juntos essa etapa neste ano. Aman agora segue também no doutorado.


Até que chegou aquela mensagem:

“Eu aprovei.”

E depois ele acrescentou:

“Você é parte fundamental na nossa história aqui no Brasil.”

Ao ler, voltei àquela conversa de 2022.


De alguma maneira, senti como se Aman estivesse me dizendo: “Obrigado. Você cumpriu sua parte. Aqui está a minha.”


Talvez ele nunca tenha pensado nessas palavras dessa forma. Mas foi assim que meu coração recebeu sua mensagem.


Alguns frutos levam quatro anos para amadurecer.


E vale a pena permanecer.


Você é parte desta história.


Preparando a Casa — e contando suas histórias


Enquanto tudo isso acontece, seguimos trabalhando na reforma da nossa nova base em Curitiba. Ainda há muito a fazer. Cada ambiente que começa a ganhar forma nos ajuda a imaginar a vida que acontecerá ali: encontros, conversas, trabalho, refeições, oração, silêncio, acolhimento.


É um projeto bonito e, ao mesmo tempo, um grande desafio financeiro e operacional.


Um dos espaços da nova Casa do Abuna, em Curitiba, começando a ganhar forma.

Um dos espaços da nova Casa do Abuna, em Curitiba, começando a ganhar forma.


Mas não estamos trabalhando apenas na Casa física.


Nas últimas semanas temos dedicado bastante tempo também a reorganizar a maneira como contamos quem somos e o que temos aprendido nesses treze anos.


Um novo site do Instituto Abuna está sendo construído.


Não se trata apenas de trocar fotografias, cores ou páginas. Temos voltado à nossa história, documentos, fotografias e relatos para encontrar uma maneira mais fiel de apresentar aquilo que o Abuna se tornou.


Casa. Pertencimento. Dignidade. Caminho. Participação.


Queremos que quem chegue até nós compreenda que acolher não é apenas assistir alguém em situação de vulnerabilidade. É caminhar com pessoas enquanto novos caminhos se tornam possíveis — reconhecendo também aquilo que cada uma traz e pode oferecer.


Ao mesmo tempo, estamos reconstruindo o site do Teleiós.


Ele nos acompanha como nosso primeiro "espaço digital" desde 2006. Depois de um período silencioso, ele volta com uma função mais clara: ser nosso espaço pessoal de escrita, reflexão e discernimento sobre fé, missão, hospitalidade, encontros e perguntas que surgem pelo caminho.


Algumas histórias pertencem ao Abuna. Outras pedem uma conversa mais pessoal, pastoral e teológica. Muitas vezes, as duas coisas se encontram.


A conversa daquela noite ao redor da mesa é um bom exemplo disso. Ela se tornou também o primeiro texto desta nova fase do Teleiós (link acima).


Seguimos


Quando colocamos setembro inteiro sobre a mesa, percebemos quantos tempos diferentes convivem dentro da mesma Casa.


Uma criança finalmente deixa a UTI.


Outra nasce e começa sua história longe do pai.


Três pessoas chegam do norte da África trazendo histórias que ainda estamos aprendendo a conhecer.


Três sírios, depois de quatro meses no Brasil, trabalham, aprendem português e começam a fazer perguntas inesperadas ao redor de uma mesa.


Um médico recebe, quatro anos depois de sua chegada, a notícia pela qual lutou durante tanto tempo.


Uma nova Casa vai ganhando forma em Curitiba.


E nós continuamos aprendendo.


Talvez uma das coisas que esses anos têm nos ensinado seja esta:

Não podemos julgar uma história pelo capítulo em que a encontramos.

Algumas estão apenas começando. Outras atravessam páginas difíceis. Há capítulos que gostaríamos de terminar depressa. E há frutos que levam anos para amadurecer.


Por isso permanecemos.


Obrigado por permanecer conosco também — em oração, amizade e partilha.


Ore conosco:


  • Sabedoria pra lidarmos com a equipe e com os relacionamentos dentro das casas. São quatro hoje, com dezenove acolhidos.

  • Recursos financeiros pra colocarmos a base de Curitiba em plena operação. Estamos buscando obter as devidas licenças (bombeiros, Anvisa e Secretaria do Meio Ambiente) e também precisamos equipar e mobiliar a cozinha e os dormitórios.

  • Saúde da Val.


Com carinho e gratidão, NEle, pelos pequeninos,


José e Val Prado

Setembro de 2026

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