top of page

Cartas da Casa

  • Foto do escritor: José Prado
    José Prado
  • 10 de ago.
  • 4 min de leitura

Tempos de Recomeços

Boletim Ministerial - Prados - Ago26


Graça e paz, queridos!



Existem histórias que só compreendemos muitos anos depois de começarem. Treze anos atrás, Val e eu abrimos nossas vidas para acolher duas mulheres sírias. Mãe e filha. Uma viúva e uma órfã. Haviam perdido marido e pai para a violência do Estado Islâmico. Chegaram ao Brasil trazendo poucas malas, muitas cicatrizes e uma pergunta silenciosa que nunca precisou ser colocada em palavras: "Existe algum lugar onde ainda seja possível recomeçar?" Naqueles dias, não imaginávamos que Deus estava escrevendo uma história muito maior do que podíamos enxergar.


No início de julho recebemos um novo pedido de acolhimento. Uma jovem cristã, perseguida por causa da sua fé em seu país no norte da África, havia chegado sozinha ao Brasil e precisava encontrar um lugar seguro. Em seu primeiro final de semana entre nós, Deus nos presenteou com uma das cenas mais bonitas que já testemunhamos. Quem abriu a porta de casa para recebê-la não fomos nós. Foi aquela mesma família síria. As mulheres que um dia chegaram feridas agora preparavam a mesa para outra mulher que também precisava recomeçar.


Percebi, mais uma vez, que a missão não termina quando abrimos a porta para alguém. Ela amadurece quando essa pessoa, um dia, abre sua própria porta para outro. Creio que é assim que o Reino de Deus cresce. Quase sempre sem alarde. De pessoa em pessoa. De casa em casa.



Ao olhar para os últimos meses, percebo que Deus tem repetido essa mesma mensagem de diferentes maneiras.


Tem sido um tempo de novos começos.


Semana passada, Marcelo, filho de um querido casal sírio acolhido aqui conosco, chegou ao mundo cercado de amor e cuidado. Quem acompanhou a trajetória dessa família Alauíta desde antes de sua chegada ao Brasil sabe o quanto esse nascimento representa. Ano passado eles perderam uma gravidez na Síria por conta do stress da perseguição. Para nós, Marcelo não é apenas mais uma criança. É um pequeno testemunho de que a guerra não teve a última palavra.


Ao mesmo tempo, nossa própria família vive dias de espera e oração. Nossa pequena Luiza, filha da nossa caçula Larissa, precisou chegar antes do tempo. Ainda permanece na UTI Neonatal, crescendo um pouco a cada dia até que possa finalmente ir para casa. Como avós, temos exercitado aquilo que tantas vezes já dissemos a outras famílias: espera, confia e descanse no Senhor. De longe, ao final de cada dia, quando recebemos notícias de Marília, oramos silenciosamente: “Senhor, traga nossa pequena pra casa”!


É curioso como Deus nos permite viver, dentro da nossa própria casa, algumas das mesmas emoções que encontramos todos os dias na caminhada ministerial. A espera, a fragilidade, a esperança... tudo isso nos aproxima ainda mais daqueles que chegam até nós carregando seus próprios medos e suas próprias perguntas.



Esse mesmo movimento também tem acontecido na terra.


Desde que chegamos a Curitiba, nosso filho Gabriel e sua esposa Stefani têm conduzido com muito carinho o recomeço do Abuna Ambiental. Ver esse projeto florescer tem sido uma alegria especial para nós. Não apenas pelos alimentos produzidos, pelas galinhas ou pela agrofloresta em formação, mas porque enxergamos ali algo ainda mais precioso: uma visão sendo transmitida à próxima geração.


Recentemente recebi uma fotografia da nossa neta Eliza, com apenas cinco anos, carregando orgulhosa uma bandeja de ovos coloridos, recém-colhidos por ela. Sorri ao olhar aquela cena. Mesmo sem saber, ela já está aprendendo que cuidar da criação também é uma forma de amar o Criador e cuidar do próximo. Algumas heranças não são entregues em palavras. São aprendidas enquanto caminhamos juntos.


E, se porventura você for da região da grande Curitiba, entre em contato para fazer sua encomenda, pois parte da produção também é vendida e, o lucro revertido no projeto.



“Nossa Casa” em Curitiba continua tomando forma. Em nossa última carta falamos sobre paredes, instalações elétricas, pisos..., mas, quanto mais a obra avança (terminamos a 1a fase!), mais percebemos que não estamos preparando apenas um prédio. Estamos preparando um lugar onde muitas histórias como estas poderão continuar sendo escritas. Um lugar onde famílias cansadas encontrarão descanso. Onde crianças voltarão a brincar. Onde pessoas de diferentes povos poderão compartilhar a mesma mesa. Onde a Igreja poderá reaprender a hospitalidade. Cada parede levantada nos lembra que uma casa só encontra seu verdadeiro sentido quando alguém atravessa sua porta.


Confesso que há dias em que nos perguntamos como tudo será possível. Quase diariamente surge uma nova necessidade na obra. Um material inesperado. Uma etapa que custa mais do que imaginávamos. Uma nova despesa. No início isso nos preocupava. Hoje entendemos que Deus está nos permitindo viver como Israel no deserto. O maná nunca chegava para o mês inteiro. Chegava para aquele dia. E, quase todos os dias, alguém tem vindo ao nosso encontro. Uma oferta. Uma palavra de encorajamento. Uma oração. Ao cair da tarde, percebemos que Deus não nos deu tudo de uma vez. Preferiu caminhar conosco um dia de cada vez. Ele sempre cuidou de tudo!


Fachada atual... e a Ilustração do que pode ser a Nova Fachada... Junte-se a nós pra que isso aconteça!


Ao terminar esta carta, volto àquela primeira cena.


Percebo que Deus tem sido muito mais generoso do que conseguimos enxergar no dia a dia. Uma porta se abrindo. Uma mesa sendo preparada. Uma família acolhida tornando-se família acolhedora. Creio que essa seja a maneira como Deus escolheu escrever sua história no mundo. Não através de grandes acontecimentos que impressionam por um instante, mas através de pessoas comuns que recebem a graça e se recusam a guardá-la apenas para si.


É isso que vocês têm sustentado conosco todos esses anos! Não apenas projetos. Mas uma cultura. Uma forma de viver o Evangelho. Uma casa onde a graça continua seu caminho.


Obrigado por caminharem conosco.


Continuem orando por Luiza.

Pela moça do norte da África que acaba de chegar ao Brasil.

Pelas famílias sírias que ainda estão sob o nosso teto e outras que baterão à nossa porta.

Pela nova “Casa” que, em breve, abrirá suas portas.

E por nós, para que jamais percamos a alegria de preparar mais uma cadeira à mesa.


"Que o Senhor continue fazendo de todos nós um povo capaz de receber, cuidar e transmitir a graça que um dia também recebemos".


Com carinho e profunda gratidão,


José e Valdívia Da Casa Curitiba, 10ago26


Sustento pessoal: chave PIX cel 11.9.8288-9171

ABUNA Fundo Geral - chave PIX email admin@abuna.org.br

Comentários


bottom of page