A religião na internet: surgimento de um novo modo de ser religioso

outubro 25, 2011 em Cibercultura, Religião por José RM Prado

O processo da midiatização da sociedade “nos permite concluir que, realmente, na cultura midiática está nascendo um novo modo de ser religioso”, constata Joana Puntel

[Thamiris Magalhães, IHU Online, 24 out 11] A Igreja Católica, como as demais instituições religiosas e não religiosas, começa a se inserir no mundo digital. Atualmente são inúmeros sites católicos que disponibilizam velas, terços, Bíblias virtuais, além de vídeos com celebrações litúrgicas, homilias, músicas religiosas, etc. Os dispositivos móveis também já têm espaço para os religiosos. A Bíblia já pode ser lida e o terço rezado pelo Ipad, por exemplo. Essa chegada da religião ao mundo digital vem causando curiosidade em muitos pesquisadores, que começam a estudar o impacto que as tecnologias causam em instituições religiosas e como estas devem não só utilizar, mas também pensar o ambiente digital. Além disso, muitos estudiosos começam a analisar qual o real desafio das religiões ao “entrarem” no mundo da Web 2.0. Uma das teóricas no campo da comunicação e da Igreja Católica é Joana Terezinha Puntel, que fala a respeito da Igreja na cultura midiática, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. Para ela, é preciso dialogar com o sujeito do nosso tempo. “Tudo é muito novo, especialmente no mundo das redes sociais ”.

Joana Terezinha Puntel pertence à Congregação das Irmãs Paulinas. É jornalista, mestre em Comunicação Social pela Universidade Metodista de São Paulo, doutora em Comunicação Social pela Simon Fraser University (Canadá) e pós-doutora pela London School of Economics and Political Science (Inglaterra). Atua como coordenadora, orientadora pedagógica, docente em nível de pós-graduação no Serviço à Pastoral da Comunicação – Sepac e como professora no Instituto Teológico de São Paulo e no Studium Theologicum de Curitiba. É membro da Equipe de Reflexão de Comunicação na Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB, faz conferências e dirige seminários na Pastoral da Comunicação em diversas dioceses do Brasil. Confira a entrevista.

Como analisa a Igreja midiática hoje? Qual sua expectativa?

Há uma variedade imensa e diversificada para aquilo que se pode chamar de “Igreja midiática” hoje. Para uma análise, é preciso fazer os devidos recortes e verificar compreensão, comportamentos, iniciativas, uso das tecnologias de comunicação, etc. em profundidade. A expectativa é a de que todo esse “fenômeno” que estamos vivendo não seja uma simples atração de novidades, mas tenha a reflexão cultural necessária por parte da Igreja e diretrizes claras do seu atuar na mídia.

Por que diz que o apelo para a Igreja hoje é ela conseguir entrar na cultura digital da interatividade?

Na verdade, não se trata tanto de “entrar” na cultura digital, mas de “estar” na cultura digital. Trata-se de uma necessidade intrínseca da evangelização que exige o diálogo entre fé e cultura, como já advertia o Papa Paulo VI, na Evangelii Nuntiandi (45), repetida mais tarde por João Paulo II no Redemptoris Missio (37c).

A Igreja está conseguindo utilizar adequadamente as redes de relacionamento? Quais os principais objetivos da instituição religiosa ao entrar no mundo digital? Eles estão sendo alcançados?

É preciso dialogar com o sujeito do nosso tempo. Tudo é muito novo, especialmente no mundo das redes sociais. Seria preciso uma pesquisa séria para poder afirmar se a Igreja está utilizando adequadamente as redes de relacionamento. Observa-se, de modo geral, que há um esforço, especialmente por parte de alguns setores, e algumas dioceses para desenvolver o relacionamento nas redes sociais. Sem dúvida falta muito, pois a tentação é sempre de “usar” os meios, sem o preparo cultural adequado, compreendendo que o processo da comunicação está mudando. Não é mais unilinear, mas interativo.

Para a Igreja Católica, o meio, ou seja, os dispositivos tecnológicos, são importantes? Ou o fundamental é a propagação da mensagem, independentemente do meio em que ela será divulgada?

Os dispositivos tecnológicos são importantes para todos, na sociedade em geral, e, portanto, também para a Igreja. A questão não é mais concebê-los como simples canais por onde passa um conteúdo, como se fossem “peças” isoladas. Há uma hibridização, ou seja, um processo de midiatização (o que implica vários aspectos, como conteúdo, produção, os aparatos, sujeitos, etc.). Naturalmente que a Igreja tem um conteúdo a oferecer (mensagem), mas esse não é mais separado simbolicamente de todas as outras “formas” que ajudam a criar ou não novos sentidos, novos significados para as pessoas.

Como a Igreja percebe os sites católicos que disponibilizam vela, terço, Bíblia virtuais? Qual o intuito da Igreja em disponibilizá-los na rede?

É preciso tomar cuidado quando se aplica o termo Igreja de modo geral. Na verdade, são segmentos da Igreja que, por iniciativa própria tomam tais atitudes. Acredito que a Teologia deveria também estudar comunicação (por exemplo, esses fenômenos) para responder como fica a fé. Porque se trata de novas expressões da fé – mudam as formas, mas a fé é a mesma.

Como avalia a religiosidade de uma pessoa que deixa de acender uma vela ou rezar um terço em uma capela ou igreja para fazê-los virtualmente?

O povo, em geral, não está preocupado com as formas. Ele tem a fé simples e pura e quer alcançar a graça que pede. A questão da “exploração” (se é que se pode dizer isso!) não vem dele.

Acredita que, neste novo tempo, está ocorrendo uma transição, causando o surgimento de uma nova religiosidade, originária da internet, já que, hoje em dia, muitas pessoas podem assistir uma missa via web, sem precisar ir ao templo, por exemplo? Acredita que está surgindo um novo modo de ser religioso?

A nova religiosidade que está surgindo não é só pelo fato de que se pode “assistir” a missa via web. Há outros aspectos importantes a serem considerados. Por exemplo, o fato de uma comunidade se reunir (fisicamente!). É sempre importante não perder de vista o processo da midiatização, que nos permite concluir que, realmente, na cultura midiática está nascendo um novo modo de ser religioso.

Como entende a utilização das redes sociais pelos padres, irmãs e demais membros da Igreja Católica? Acha que atrai os fiéis para a Igreja e/ou faz com que permaneçam os já existentes?

Acredito, como já mencionado anteriormente, que é preciso ter claro o que é a missão de evangelizar. Sua necessidade de dialogar com as pessoas do hoje. Mas isso implica conhecer a cultura midiática, ter uma forte espiritualidade e cuidar da qualidade do ser e do atuar.

O Papa João Paulo II chamou os meios de comunicação de um “novo areópago”, ou seja, a nova “praça”, e que a Igreja deveria caminhar para essa “praça”. Em sua concepção, a Igreja tem refletido sobre a utilização correta desses meios?

Na verdade, ao referir-se a “um novo areópago”, João Paulo II mencionou o “mundo da comunicação” em que, naturalmente, os meios de comunicação estão criando novas atitudes, etc. Sim, a Igreja, como São Paulo em Atenas, deve estar nessa “praça” pública para anunciar o Evangelho. O cuidado, porém, recai nas palavras “é preciso integrar à mensagem nesta nova cultura”, como diz o pontífice no documento Redemptoris Missio, n. 37c.

Existe algum tipo de formação para os que divulgam a mensagem religiosa no mundo virtual?

Sim, existem vários cursos de formação. Por exemplo, o Serviço à Pastoral da Comunicação – Sepac (www.sepac.org.br) é um centro de comunicação dedicado à educação, formação para a comunicação, levando em conta o preparo cultural e prático do mundo virtual.

A senhora acredita que, independentemente do que o que é dito e lido na internet, o simples fato de estar conectado a novo mundo muda muita coisa?

Não é um fato mecânico! Sim, há grande influência. Mas por isso mesmo é necessário a formação para o senso crítico, a educação para as devidas escolhas, enfim, uma educação para os princípios e valores fundamentais da pessoa. E isso deveria perpassar todas as pastorais. Por exemplo, a catequese deveria trazer a cotidianidade das crianças, dos adolescentes… para trabalhar a partir de suas realidades.