A música que chegou antes do caminho
Atualizado: há 2 dias

Algumas palavras chegam antes que saibamos o que elas significam.
Às vezes, cantamos uma imagem durante anos e somente muito depois percebemos que já estávamos vivendo dentro dela.
Foi o que me aconteceu recentemente, quando voltei a ouvir “De trem”, uma das canções do álbum Contraste. A música, composta por João Alexandre e Luciano Garruti Filho, fala da vida como viagem: o trem segue, as paisagens mudam, pessoas se aproximam e se afastam, e o viajante procura compreender a direção enquanto continua em movimento.
Ao ouvi-la agora, depois de mais de quarenta anos, tive uma reação imediata: essa poderia ser a música do Teleiós.
Não pensei nisso porque precisássemos escolher uma canção oficial para o site. Tampouco porque os compositores tivessem escrito sobre a história que Val e eu viveríamos. A aproximação nasceu de outro lugar. Reconheci na poesia uma gramática que somente agora começamos a nomear: caminho, estações, encontros, desencontros, partidas e retornos.
A canção estava lá muito antes do nosso léxico.
Contraste
O Grupo Pescador começou a se reunir em 1983. Éramos Davi Kerr, Luciano Garruti Filho, João Alexandre, Rogério Boccato e eu. Gravamos Contraste no final daquele ano, e o disco foi lançado em 1984.
Eu tinha pouco mais de vinte anos e era o Zé da Flauta.
Essa roupa havia começado a ser vestida alguns anos antes, quando meu pai, com muito sacrifício, conseguiu me dar uma flauta transversal. Depois vieram as aulas com João Dias Carrasqueira, a música brasileira que habitava sua casa, os ensaios, os amigos e, finalmente, o Pescador.
É difícil olhar para aquele disco sem perceber quantas coisas já estavam se encontrando ali. Havia o desejo de fazer música cristã com rigor bíblico e beleza musical, mas também com sotaque brasileiro. Havia amizade, juventude, descobertas e uma inquietação que ainda não sabíamos explicar completamente. O próprio nome Contraste sugeria que a fé não nos afastava das tensões da vida. Convidava-nos a atravessá-las.
O grupo terminou antes que o disco chegasse efetivamente ao público. Alguns daqueles caminhos se separaram; outros voltariam a se cruzar. João e eu seguiríamos para o MILAD. Anos mais tarde, Rogério e eu nos reencontraríamos na formação inicial da Jazz Sinfônica do Estado de São Paulo. O companheiro de um pequeno grupo cristão reapareceria ao meu lado num ambiente profissional de músicos extraordinários.
Na época da gravação, porém, nada disso podia ser visto.
Nós só tínhamos o trecho diante de nós.
Uma viagem que ainda não conhecíamos
Quando gravamos “De trem”, Val e eu ainda não éramos casados. Meu pai estava vivo. Eu não havia entrado no ônibus do MILAD, percorrido o Brasil, estudado teologia ou me tornado pastor. Não conhecia a Costa Rica, a África, Timor-Leste nem o sertão nordestino. Não havia recebido famílias refugiadas em aeroportos, aberto casas de acolhimento ou chegado à Grande Curitiba.
Eu não sabia quantas vezes mudaria de cidade, de função e de planos. Não sabia que algumas pessoas entrariam em nossa história por poucos quilômetros, enquanto outras permaneceriam conosco por muitas estações. Não sabia que certos caminhos terminariam abruptamente, que haveria muros construídos por pessoas e pedras que ninguém havia colocado ali. Não sabia que, em alguns momentos, avançar significaria voltar.
Nada disso estava disponível para aquele jovem músico.
Ainda assim, ele soprou sua flauta dentro de uma canção sobre viagem.
Talvez seja essa a razão de ela me alcançar de outra maneira agora. A música não me entrega um mapa secreto que sempre esteve diante dos meus olhos. Ela faz algo mais simples e, para mim, mais verdadeiro: oferece uma linguagem antiga para reconhecer uma experiência que só o tempo tornou visível.
Há caminhos que só conseguimos compreender depois de percorrê-los.
A salvação não interrompe a viagem
Há na canção uma percepção que continua me comovendo: encontrar direção não significa deixar o trem. A fé não retira o viajante da paisagem, das perguntas, das mudanças ou da companhia de pessoas diferentes. A viagem prossegue.
Durante muito tempo, parte da linguagem religiosa que ouvi parecia sugerir o contrário. Como se a maturidade espiritual nos conduzisse a uma plataforma segura, de onde finalmente poderíamos explicar a estrada para os outros. Como se chegar à fé fosse também chegar ao fim das dúvidas, das fragilidades e das transformações.
Nossa experiência foi diferente.
A fé nos colocou mais profundamente no caminho. Levou-nos para perto de pessoas, conflitos e realidades que não conhecíamos. Fez-nos partir sem todos os recursos, receber ajuda de quem não esperávamos e descobrir que algumas convicções precisavam amadurecer. Não eliminou os desencontros. Ensinou-nos, algumas vezes, a não permitir que eles fossem a palavra final.
O caminho também nos transformou. As roupas de músico, pastor, professor, executivo de agência missionária, pesquisador e articulador não substituíram completamente umas às outras. Algumas foram vestidas sobre as anteriores. Outras deixaram de servir. Todas carregam marcas dos lugares pelos quais passamos.
Continuamos no trem — já não como as mesmas pessoas que embarcaram.
Ouvir novamente
Reencontrar uma canção antiga também é uma forma de retorno.
O som gravado permanece quase igual, mas quem escuta mudou. O jovem que participou daquele disco ouvia possibilidades. O homem que retorna a ele ouve também perdas, encontros, desvios, reconciliações e a fidelidade que só pode ser reconhecida ao longo do tempo.
Uma obra pode guardar mais do que seu autor ou intérprete sabia estar colocando nela. Não porque esconda uma previsão detalhada do futuro, mas porque certas imagens são maiores do que o momento em que nasceram. Continuam viajando enquanto nós também viajamos.
“De trem” não precisa ser declarada a música-tema do Teleiós. Prefiro deixá-la como foi reencontrada: uma referência, uma companhia, uma janela aberta para o começo.
Ela nos lembra que a estrada não nasceu quando começamos a falar sobre ela. Quando encontramos as palavras CAMINHO, ESTAÇÕES, ENCONTROS, DESENCONTROS e RETORNOS, não estávamos inventando uma identidade nova. Estávamos aprendendo a conjugar uma história antiga.
Talvez seja isso que fazemos quando voltamos a uma música, uma fotografia ou um lugar: não procuramos apenas aquilo que aconteceu. Procuramos escutar o que aquela experiência ainda pode nos dizer.
E algumas vezes descobrimos que, muito antes de compreendermos o caminho, uma canção já havia embarcado conosco.
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