Arquivo da tag: missão integral

Paz e dignidade a todos, pois Ele nos quer bem!

Renato e JoséPor muitos anos ‘seu Renato’ foi um homem em ‘situação de rua’, um mendigo. Sem família ou amigos, isolado do mundo por conta da cegueira causada pela catarata, fazia seu ponto no Largo do Paissandu e dormia sob as marquises próximas. Cabeça curvada, ombros caídos, cabelo desgrenhado, roupas em trapos, sujas e fedidas, voz fraca, sua postura e condição corporal denunciavam seu estado de alma. Um morto-vivo. Escuridão, fome, solidão, desespero e angústia eram suas companheiras.

Conheci-o em junho de 2013, quando foi levado pela mão por outros mendigos ao albergue da Missão Cena. Sempre quieto, contrastando com a agitação e barulho do ambiente, ficava pelos cantos aguardando com resignação que lhe levassem o prato de comida. Naquele inverno, semana após semana, pude ministrar sobre a vida de Jesus, baseado no Evangelho de João. Ao final de cada noite, conversávamos e orávamos juntos.

Seu Renato destacava-se não só por sua vulnerabilidade, mas também por sua fé. Ao final da noite, um a um os albergados dirigiam-se pra suas camas. Seu Renato não. Negava-se a deitar-se enquanto não orássemos com ele. A foto abaixo registra um desses momentos. Algumas vezes estava já indo embora quando era exortado por um dos voluntários: “Pastor, não vai orar pelo seu Renato? Ele está lá, esperando”! Trago na memória a imagem dele em pé, ao lado do colchão, sozinho, com a cabeça curvada, aguardando a oração…

A operação do Evangelho na vida de uma pessoa nunca é fruto do esforço isolado de uma pessoa. Ao contrário, muitos são coparticipantes da santa obra do Espírito. Registro aqui, portanto, minha gratidão e admiração por todo pessoal da Missão CENA, pelo João Carlos Batista Boca, missionários (Josimar Chaves da Silva), muitos voluntários ( Filipe Marques Silva Lopes, Daniel Marques Silva, Edison Amaral Lopes) que com grande empenho, sacrifício e fé, durante anos, têm investido na vida deste e de muitos outros “Renatos”, até que a imagem de Cristo seja formada na vida destas pessoas.

Mas permita-me compartilhar esta enorme e indescritível alegria de fazer parte DESTA história! Em dias de tantas desesperanças e tragédias, a história do seu Renato é para mim um marco, um memorial a ser preservado e cuidado com todo carinho. O Eterno continua sendo Deus! Cristo continua sendo especialista em transformar vidas quebradas e o Espírito Santo continua agindo em meio ao caos de nossas cidades, trazendo vida e glória aos que, aos olhos do sistema-mundo, nada são.

Encontrei com seu Renato esta semana. Aguardava por este dia. Foi um longo e gradual processo, mas aqui está um novo homem em todos os sentidos. Cheio de vida, voz forte, postura ereta, rosto e roupas limpas… Convertido ao amor e graça de Cristo, curado da catarata, restaurado emocional e socialmente, trabalha com dignidade no centro de São Paulo, distribuindo simpatia e cordialidade a todos!

Quando nós, povo da cruz, mesmo com toda a nossa pequenez, seguimos as pegadas do nosso Senhor Jesus Cristo, e acreditamos na força do Evangelho do amor, e servimos as pessoas com desprendimento, e oramos com fé… o Reino do bem se manifesta em todo seu poder e graça e glória.

Na falta de melhores palavras, convido-lhe a parafrasear os anjos… Glória a Deus nas maiores alturas e paz, dignidade, vida, amor e graça a todas as pessoas, nesta terra ferida, pois Ele nos quer bem!

“Prioridade” para quem? Qual Evangelho? ~ Vinoth Ramachandra

[Texto publicado no Novos Diálogos, 29 nov 2010]

Contaram-me que no recente Congresso de Lausanne na Cidade do Cabo um pregador e autor americano popular afirmou veementemente que a evangelização, entendida como a proclamação verbal do Evangelho, era a “prioridade” da Igreja. Como esta é uma reação típica, instintiva, que a conversa sobre a justiça social ou a “missão integral” provoca em círculos evangélicos conservadores, é importante explorar quem está dizendo este tipo de coisa e se eles na verdade praticam o que estão dizendo.

Se as prioridades de uma pessoa são medidas pelo tempo que ele ou ela gasta no que faz, estou certo que qualquer um que observe a vida cotidiana deste pregador não concluiria que a evangelização fosse sua prioridade. Ele gastou considerável tempo e dinheiro numa longa e cara aquisição de educação. Se ele tem filhos, estou seguro que tem, da mesma maneira, investido significativamente na sua alimentação e em lhes assegurar a melhor educação possível. Não tenho dúvida de que ele come, pelo menos, três refeições ao dia e desfruta, ao menos, seis horas de sono por noite. Ele tem assistência médica e acesso à melhor atenção médica na nação mais rica no mundo. Possuindo um passaporte americano, ele pode voar livremente para (quase) qualquer lugar do mundo, sem precisar esperar em filas do lado de fora de embaixadas para conseguir vistos. Em outras palavras, seu estilo de vida privilegiado não se dá conta de muita coisa. Esse estilo de vida foi possibilitado pelo trabalho e sacrifício de tantos desconhecidos em muitas partes do mundo. E está distante da realidade experimentada pela maioria de seus irmãos que estavam presentes na Cidade do Cabo. Continue lendo

A benção do desconforto

Hoje, nos meus estudos, deparei-me com uma oração franciscana, uma ‘benção’, publicada no Blog do Michael Hyatt, em Inglês. Pesquisando mais, percebi que foi publicada em Português num livro do Phillip Yancey e também traduzida pelo Valdir Steuernaguel.

Respeitando as traduções, tomei a liberdade de fazer uma mais enxuta e, talvez por isso, mais radical. Gostei tanto que decidi compartilhá-la com vocês, fazendo a mesma advertência feita pelo Hyatt: esta benção é completamente contracultural à espiritualidade do ‘bem estar e prosperidade’ tão popular em nossos dias. Vai encarar? Continue lendo

O futuro do movimento de Lausanne ~ René Padilla

Os números relacionados com o Terceiro Congresso Internacional de Evangelização Mundial — que aconteceu na Cidade do Cabo, África do Sul, de 17 a 24 de outubro, sob o tema “Deus em Cristo estava reconciliando consigo o mundo” (2 Coríntios 5:19) — são impressionantes. Estiveram presentes mais de 4 mil participantes de 198 países. Além disso, houve cerca de 650 sites de Internet conectados com o Congresso em 91 países e 100 mil “visitas” de 185 países. Isto significa que milhares de pessoas de todo o mundo puderam assistir às sessões por meio da Internet. Doug Birdsall, o presidente executivo do Movimento de Lausanne, provavelmente tem razão em afirmar que Cidade do Cabo 2010 foi “a assembleia evangélica global mais representativa da história”. Sem dúvida, este resultado foi alcançado, em grande medida, por meio de seu longo esforço.

Igualmente impressionantes foram os muitos arranjos práticos que se fizeram antes do Congresso. Além do difícil processo de seleção dos oradores para as plenárias e para os “multiplexes” (seminários) e as sessões de diálogo, dos tradutores e dos participantes de cada país representado, havia duas tarefas que devem ter envolvido muito trabalho antes do Congresso: a Conversa Global de Lausanne, para possibilitar que muita gente ao redor do mundo fizesse seus comentários e interagisse com outros, aproveitando os avanços tecnológicos contemporâneos; e a redação da primeira parte (a teológica) do Compromisso da Cidade do Cabo, redigida pelo Grupo de Trabalho Teológico de Lausanne, sob a direção de Christopher Wright. Continue lendo

Meu Brasil, Tua Igreja ~ por José Roberto Prado

Segundo dados do IBGE, na década de noventa a igreja brasileira cresceu a um ritmo quatro vezes superior ao crescimento da população. Este crescimento numérico, ainda que exponencial, sozinho, não produz igrejas fortes (maduras), e por isso também não resulta “naturalmente” numa nação transformada pelo Evangelho.

Para tristeza daqueles que se deixam mover pela aparente força da multidão, ao olharmos abaixo da superfície veremos que boa parcela deste crescimento não é fruto de um processo sadio (o aprofundamento dos padrões bíblicos) e também não é experimentado por todas as linhas que compõe o que se chama de “igreja evangélica brasileira” hoje. Pelo contrário, existem muitas igrejas encolhendo.

Continue lendo